Artigo - A BR-319 não resolve a cegueira logística sobre a Amazônia

A BR-319 é um dos temas mais emocionalmente explorados da infraestrutura brasileira. A cada novo ciclo político, a rodovia reaparece como promessa, bandeira eleitoral ou símbolo de integração nacional. Mas, enquanto o debate se concentra no asfalto, o verdadeiro problema logístico do Amazonas segue sem enfrentamento estrutural. E existe uma pergunta que precisa ser feita sem rodeios: por que o governo insiste em vender a BR-319 como solução, enquanto ignora a infraestrutura que efetivamente sustenta o Amazonas todos os dias?

Quero ressaltar que não levanto uma bandeira contra a BR-319. A rodovia pode cumprir papel importante de mobilidade regional e integração terrestre. O problema é transformá-la em solução única enquanto o governo segue negligenciando a infraestrutura que efetivamente sustenta o Amazonas: a navegação.


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A economia da região não espera discursos. O Polo Industrial de Manaus faturou R$ 58,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, com crescimento de 2,24% e mais de 129 mil empregos diretos, segundo a SUFRAMA. Trata-se de uma operação industrial de escala nacional que depende, majoritariamente, dos rios para abastecimento e escoamento. E é justamente aí que mora a contradição.

Enquanto Brasília acelera anúncios para a BR-319 com mais de R$ 1 bilhão em obras autorizadas no Amazonas neste ano, incluindo a rodovia, a principal  infraestrutura logística amazônica continua sem uma política estrutural compatível com sua relevância econômica. Onde está o programa permanente de dragagem de manutenção? Onde está a modernização robusta da sinalização náutica? Onde está o monitoramento hidrológico preditivo? Onde está a estratégia logística de adaptação climática?

Nos últimos anos, secas severas deixaram claro que eventos extremos já não são exceção. São variáveis permanentes de planejamento. E ainda assim, a resposta pública segue baseada em improviso, medidas emergenciais e decisões fragmentadas.

A BR-319 virou símbolo político. Mas infraestrutura séria não se constrói com simbolismo. A própria condução recente do tema evidencia isso. O governo acelerou movimentos para avançar com a rodovia em 2026, enquanto o projeto continua cercado por controvérsias regulatórias, ambientais e judiciais. O ponto aqui não é ambientalizar o debate, mas racionalizá-lo: por que existe tanta urgência política para o asfalto e tão pouca para tornar resiliente a logística que já move o Amazonas?

O erro histórico do Brasil é olhar a Amazônia com a lógica de outras geografias. Nenhuma economia eficiente escolhe um único modal como resposta estrutural. Os sistemas logísticos mais competitivos do mundo operam com integração, previsibilidade e inteligência territorial. No Amazonas, insistimos em um debate ideológico, quando o desafio é técnico.

A pergunta correta não é se a BR-319 deve ou não avançar, mas é questionar por que a multimodalidade ainda não virou política pública. Sem hidrovias resilientes, terminais eficientes, previsibilidade operacional e integração logística, nenhuma estrada resolverá sozinha o isolamento da região. O Amazonas não precisa de promessas de campanha. Precisa de planejamento.


260527-marcello-di-gregorio-super-terminais-divulgacao-edit-artigo.jpgMarcello Di Gregorio é diretor-geral do Super Terminais e mestre em Logística e Gestão Portuária pela Universitat Politècnica de València, com pesquisa focada em infraestrutura portuária adaptativa e resiliência logística na Amazônia.






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