O Rio de Janeiro vive um momento emblemático na sua atividade portuária. Os volumes movimentados crescem, a eficiência logística avança e a integração com a cabotagem se fortalece. Ainda assim, o valor econômico gerado por essa movimentação não evolui na mesma proporção. Esse aparente paradoxo aponta para uma questão central no futuro do setor: o desafio já não é apenas mover mais cargas, mas mover cargas que gerem mais riqueza.
O modelo historicamente baseado em grandes volumes de granéis e commodities cumpriu, e continua cumprindo, papel relevante na balança comercial. No entanto, carrega limitações estruturais. Trata-se de um perfil fortemente dependente de preços internacionais, com baixo valor agregado por tonelada e alta exigência de espaço físico. Em um ambiente portuário como o do Rio, geograficamente limitado e inserido em área urbana densa, simplesmente ampliar tonelagens não é uma estratégia sustentável de crescimento.
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Além disso, o avanço da cabotagem, que traz ganhos expressivos de eficiência para a logística interna do país, não se traduz automaticamente em maior geração de divisas, já que grande parte dessas operações não impacta diretamente o faturamento em moeda estrangeira. O resultado é um sistema mais movimentado, porém não necessariamente mais rentável para a economia regional. É nesse ponto que se impõe uma mudança de lógica.
A nova fronteira está na migração para cargas de maior valor agregado, especialmente aquelas associadas à cadeia do frio. Contêineres refrigerados, voltados para proteínas, pescado beneficiado e alimentos processados, representam uma transformação estrutural. Ocupam menos espaço proporcional, demandam infraestrutura tecnológica, certificações sanitárias e energia de qualidade e geram mercadorias cujo valor por tonelada é significativamente superior ao das cargas brutas. O porto deixa de ser apenas um ponto de passagem e passa a integrar uma cadeia industrial-logística sofisticada.
Essa lógica já se materializa na prática em alguns terminais brasileiros. Um exemplo concreto é o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), no Paraná, que possui o maior pátio para armazenamento de contêineres refrigerados da América do Sul, com 5.268 tomadas dedicadas à conexão de unidades reefer. Em 2025, o terminal registrou recordes na movimentação de cargas refrigeradas: foram mais de 69 mil contêineres reefer movimentados no primeiro semestre, crescimento de 7% em relação ao mesmo período de 2024, com embarques de carne bovina que alcançaram 449 mil toneladas — alta de 48% — e participação de mercado de 31% nas exportações brasileiras desse segmento.
Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) mostram ainda que, no mesmo período, a exportação nacional de carne bovina gerou US$ 7,23 bilhões em receita. São números que evidenciam o peso econômico dessa cadeia logística especializada e demonstram como a infraestrutura voltada a contêineres refrigerados pode impulsionar a geração de valor agregado e fortalecer a inserção dos portos brasileiros nas cadeias globais de alimentos de alto valor.
Essa agenda dialoga diretamente com as tendências globais. A digitalização das operações, o monitoramento em tempo real da cadeia de frio, a integração intermodal e a eletrificação de equipamentos de pátio posicionam os portos como plataformas tecnológicas, e não apenas como infraestruturas de transporte. Soma-se a isso a crescente exigência por padrões ambientais e de baixa emissão de carbono, que influenciam decisões de armadores e operadores logísticos no mundo inteiro. Portos eficientes e sustentáveis são, cada vez mais, fator de competitividade.
O futuro dos portos do Rio de Janeiro, portanto, passa por uma mudança de métrica. O sucesso não será medido apenas em toneladas movimentadas, mas na capacidade de atrair cargas que concentrem mais valor econômico, tecnológico e social por metro quadrado de área portuária. É a transição do porto como corredor de passagem para o porto como centro de inteligência logística.
Ao apostar em valor agregado, o estado reduz sua vulnerabilidade às oscilações externas, estimula cadeias produtivas locais, gera empregos mais qualificados e utiliza de forma mais racional um espaço físico escasso. Essa é a base para uma nova geração de portos: menos dependentes do volume bruto e mais conectados à inovação, à indústria e ao desenvolvimento sustentável. O desafio está posto, e é nele que se define o papel do Rio de Janeiro na logística do futuro.
Patrícia Seabra é subsecretária de Gestão Portuária e Atividades Navais da Casa Civil do Estado do Rio de Janeiro







