Depois de um primeiro semestre novamente marcado por elevada volatilidade nos fretes - vide a abruta variação nos fretes de importação da Ásia – pode-se dizer que o transporte marítimo global entra na segunda metade do ano cercado por mais perguntas do que respostas.
Embora o mercado esteja distante dos níveis extremos observados durante a pandemia, diversos fatores seguem influenciando diretamente os custos logísticos, a disponibilidade de capacidade, os níveis de serviço dos armadores e, claro, os custos para importadores e exportadores mundo a fora.
PUBLICIDADE
Para os “donos da carga”, compreender essas variáveis tornou-se tão importante quanto negociar fretes ou acompanhar embarques. Afinal, cada uma delas pode impactar diretamente os custos, os prazos e a previsibilidade das cadeias de suprimentos.
Geopolítica continua sendo a principal variável de risco (ou de alívio)
Se houve uma lição importante nos últimos anos, foi a de que a geopolítica pode alterar o transporte marítimo global em questão de dias. Os ataques dos Houthis no Mar Vermelho e, mais recentemente, o fechamento do estreito de Ormuz continuam sendo as principais preocupações do setor.
O recente ataque do Irã a um navio da Evergreen que cruzava o canal pela costa de Omã, levou à retomada das hostilidades, demonstrando que a insegurança na região deverá manter grande parte dos armadores operando na região por rotas alternativas com transit times maiores que, por sua vez, aumentam o consumo de combustíveis e os custos de afretamento, além de reduzir a quantidade de viagens por ano que navios e contêiners conseguem fazer – ou seja, reduzindo a capacidade global.
Uma escalada militar mais contundente envolvendo Irã, Israel ou seus aliados pode voltar a elevar os preços da energia não apenas para os navios. Mesmo que não ocorram interrupções efetivas, a simples percepção de risco costuma elevar custos de seguro, gerar desvios de rota e pressionar os fretes marítimos.
Por outro lado, um acordo de paz robusto e duradouro no Oriente Médio pode rapidamente reduzir custos, diminuir distâncias, tirar pressão dos hubs ports do Mediterrâneo e Cingapura, gerar redundância de navios e, consequentemente, pressão baixista nos fretes marítimos em todo o mundo.
Economia global: crescimento moderado e juros ainda elevados
As perspectivas econômicas também merecem atenção. No Brasil, a expectativa do mercado é de desaceleração gradual da atividade econômica em comparação com os últimos dois anos. Os juros brasileiros continuam em patamares elevados, o endividamento das famílias segue alto, o crédito permanece seletivo e parte do setor produtivo já demonstra maior cautela
Esse cenário tende a moderar o crescimento das importações, especialmente de bens de consumo, produtos industrializados e insumos para muitos segmentos do mercado doméstico. Apesar de fazer sentido, vale mencionar que o famoso “mercado” mostrou certo exagero no pessimismo nos últimos anos.
No cenário global, a alta do petróleo também segue pressionando a inflação e os juros, mas a economia mundial deve continuar crescendo, ainda que em ritmo inferior ao observado no período pós-pandemia. Estados Unidos, Europa e China seguem enfrentando desafios distintos, mas sem sinais claros de uma recessão global sincronizada, o que sugere um ambiente relativamente favorável para as exportações brasileiras.
High Season pode trazer pressão temporária sobre fretes
O segundo semestre tradicionalmente concentra a chamada high season do comércio internacional. Entre julho e outubro, varejistas em todo o mundo intensificam a formação de estoques para eventos como Black Friday, Thanksgiving, Natal e, posteriormente, para o período de inverno no Hemisfério Norte.
Nos últimos anos, essa sazonalidade ficou parcialmente mascarada pelos efeitos da pandemia e pelas disrupções geopolíticas. Ainda assim, o aumento da demanda por transporte marítimo tende a gerar pressão temporária sobre fretes, disponibilidade de contêineres e espaços disponíveis nos navios. A intensidade desse movimento dependerá diretamente da confiança dos consumidores, do nível de estoques já existentes nos diferentes mercados e da evolução das disputas comerciais entre algumas das principais economias do mundo.
Clima seguirá influenciando a logística global
Os eventos climáticos permanecem entre os principais fatores de risco para as cadeias logísticas. O Canal do Panamá, que recentemente vem sendo utilizado como uma das rotas alternativas ao Canal de Suez, em virtude dos conflitos no Mar Vermelho, ainda carrega as cicatrizes da severa seca vivida em 2023.
Com a chegada de um novo El Niño, uma eventual retomada de condições climáticas adversas poderá reduzir novamente o número de trânsitos diários e aumentar filas de espera por lá.
No Brasil, os impactos desse fenômeno climático também merecerão acompanhamento constante. Na região amazônica, os níveis dos rios continuam sendo determinantes para a logística da Zona Franca de Manaus e, claro, para o abastecimento da população. Períodos de estiagem severa podem reduzir a capacidade efetiva dos navios, exigir transbordos intermediários e elevar significativamente os custos de transporte.
Já no sul do país, os eventos extremos registrados recentemente demonstraram não apenas a força da natureza como também a vulnerabilidade da infraestrutura logística diante desses eventos. Novos episódios de chuvas intensas podem voltar a afetar rodovias, ferrovias, terminais portuários e a população como um todo.
Oferta de navios cresce, mas sucateamento continua baixo
Um dos principais fenômenos do mercado atual é o enorme volume de embarcações em construção ao mesmo tempo que o sucateamento de navios antigos nunca foi tão baixo. A carteira mundial de encomendas de navios porta-contêineres permanece próxima dos maiores níveis da história em termos proporcionais, com o equivalente a quase 40% da frota em operação (em termos absolutos acaba de ultrapassar a barreira do 13 milhões de TEUs e é de longe a maior carteira da história), como resultado das encomendas realizadas durante os períodos de fretes recordes observados nos últimos anos e, claro, de uma aguardada transição energética.
Em condições normais, essa expansão drástica de oferta tenderia a pressionar os fretes para baixo, entretanto, esse efeito tem sido parcialmente neutralizado por alguns fatores:
- Desvios de rotas provocados pela crise no Mar Vermelho;
- Velocidades reduzidas, para atender metas ambientais, que na prática aumenta o tempo de viagem e a demanda por navios;
- Congestionamentos nos principais hubports do mundo, que também aumentam o tempo da viagem.
Em contrapartida, um avanço no sucateamento de embarcações obsoletas poderia ajudar a regular um eventual excesso de oferta, apesar de muitos armadores ainda parecerem preferir manter os navios antigos em operação, tanto pela enorme volatilidade na demanda vivida nos últimos anos, quanto pelas incertezas relacionadas aos combustíveis do futuro ou, ainda, pela falta de estaleiros aptos a atender as novas regras desmanche de navios determinadas pela Convenção de Hong Kong.
Fato é que, caso os fretes venham a cair muito, seja pela chegada de novos navios, seja pela pacificação no Oriente Médio, os armadores têm “na manga” a possibilidade de sucatear cerca de 15% da frota atual que já ultrapassou os 20 anos em operação.
Eleições e tarifas comerciais podem aumentar a incerteza
O calendário político também merece atenção. Nos Estados Unidos, a continuidade das políticas de proteção comercial e incentivo à produção doméstica seguem influenciando as cadeias globais de suprimentos. Novas tarifas, restrições comerciais ou medidas voltadas à proteção da indústria americana – como as que estão em consulta pública atualmente – podem voltar a afetar diretamente os fluxos comerciais pelo mundo.
Por outro lado, essas mesmas políticas têm impactado diretamente o custo de vida nos EUA e, consequentemente, a popularidade do atual presidente, o que pode levá-lo a perder a maioria no congresso nas eleições de meio de mandato, que ocorrerão em novembro próximo, o que reduziria suas margens de manobra na imposição de tais políticas.
No Brasil, a aproximação do ciclo eleitoral historicamente pressiona a política fiscal e, lamentavelmente, desvia o foco para questões ideológicas, pautas populares (fim da escala 6x1) e narrativas inócuas sobre corrupção, em detrimento, por exemplo, de investimentos em infraestrutura, que tem baixo apelo eleitoral.
Além disso, não pode ser descartada a possibilidade de uma “contaminação política” de novas medidas tarifárias por parte dos EUA e direcionadas a determinados produtos brasileiros.
Agronegócio continuará sustentando as exportações brasileiras
O agronegócio deverá permanecer como um dos principais motores da demanda por transporte marítimo brasileiro, sobretudo nos próximos meses com a início do período de safra do algodão, café, milho, açúcar e das frutas produzidas no nordeste. Por outro lado, será importante acompanhar a recente exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para a União Europeia.
Ainda assim, caso o acordo Mercosul-União Europeia siga avançando para sua implementação definitiva, isso poderá abrir novas oportunidades para diversos setores exportadores brasileiros ligados ao agronegócio.
Gargalos logísticos continuam preocupando
Apesar dos investimentos anunciados em diversos países, os recorrentes congestionamentos em alguns dos principais portos do mundo continua sendo uma preocupação relevante. No Brasil, terminais de contêineres em regiões estratégicas operam cada vez mais acima de sua capacidade operacional ótima.
Questões como dragagem, ampliação de cais, acessos terrestres e novos projetos portuários (ex: a concessão do Tecon Santos 10) permanecem fundamentais para sustentar o crescimento da movimentação no Brasil. Em um ambiente global cada vez mais integrado, gargalos locais rapidamente produzem um efeito cascata de escala mundial.
Conclusão
Se os últimos anos ensinaram algo ao setor marítimo, foi que previsibilidade se tornou um ativo cada vez mais raro, e o segundo semestre deverá ser marcado por uma combinação de crescimento moderado da demanda global, forte influência da geopolítica, desafios climáticos, expansão da oferta de navios e persistentes gargalos logísticos.
Para importadores e exportadores brasileiros, a principal recomendação continua sendo acompanhar de perto os indicadores econômicos, manter planejamento logístico flexível e desenvolver estratégias capazes de responder rapidamente a mudanças de cenário.
Em um ambiente tão dinâmico, a vantagem competitiva não estará necessariamente em prever o futuro, mas em estar preparado para se adaptar às mudanças mais rápido do que os concorrentes.
Leandro Carelli Barreto é sócio-consultor da Solve Shipping. 


