A distribuidora de combustíveis Raízen, que opera com a marca Shell, decidiu segurar até R$ 2 bilhões em investimentos diante do risco de novas intervenções no mercado de combustíveis.
O avaliação de risco aumentou após o início do programa de subvenção ao óleo diesel criado pelo governo federal em maio para encerrar a paralisação dos caminhoneiros.
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"A interferência cria incertezas, afeta a competição e é pior para o consumidor", disse o vice-presidente da companhia, Ricardo Musa, durante a feira Rio Oil & Gas, que reúne o setor de petróleo no Rio.
Segundo ele, os investimento suspensos concentram-se em projetos de logística e consumiriam entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões.
Para o presidente da Abicom, entidade que reúne os importadores de combustíveis, Sérgio Araújo, há revisões de projetos também entre suas associadas, que consideram os preços atuais baixos para justificar a ampliação de capacidade para trazer produtos do exterior.
"Temos de saber se o novo governo que vem por aí vai querer mudar a política de preços da Petrobras", acrescentou, dizendo que uma política de preços abaixo do mercado internacional inviabiliza importações e os investimentos para trazer os produtos.
Terceira maior distribuidora de combustíveis do país, atrás da BR e da Ipiranga, a Raízen passou a importar grandes volumes de combustíveis após 2016, quando a Petrobras começou a seguir as cotações internacionais.
Após o início da subvenção, as importações privadas de diesel foram praticamente suspensas --a Petrobras recuperou mercado e voltou a ser a principal responsável pela compra dos produtos no mercado externo.
O programa de subvenção garante ao consumidor um desconto de R$ 0,30 por litro sobre o preço de mercado do óleo diesel. O governo separou R$ 9,5 bilhões para ressarcir as empresas que reduzirem seus preços.
Para o vice-presidente da Raízen, os subsídios foram "exagerados".
Ele defendeu o início das discussões sobre o futuro do programa logo após o resultado das eleições.
O programa de subvenção será encerrado no dia 31 de dezembro.
O setor teme que o preço seja reajustado em R$ 0,30 por litro já no primeiro dia do novo governo, trazendo de volta protestos de caminhoneiros.
O ministro do Planejamento, Esteves Colnago, disse que o governo Temer ainda não tem uma proposta de saída do programa.
"Esse tema tem de ser discutido durante a transição", afirmou ele, após palestra na feira.
Colnago disse, porém, que o subsídio não deve ser mantido como hoje. "Não é uma solução estrutural", disse.
Diante da crise fiscal, é pouco provável que haja recursos para mantê-lo em 2019.
"A subvenção é indesejável. Devemos sair disso o mais rápido possível. Aliás, não deveríamos nem ter entrado", criticou o diretor-geral da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), Décio Oddone.
Colnago ressaltou que a saída do programa pode ser mais fácil se as cotações internacionais do petróleo e o câmbio cederem até o fim do ano, reduzindo a pressão sobre os preços dos combustíveis no país.
Para analistas, porém, o petróleo continuará caro.
Hoje, o desconto de R$ 0,30 não é suficiente para cobrir a diferença entre o preço tabelado do diesel no país e a referência internacional usada pela ANP para calcular o subsídio. Nesta quinta-feira (27), a diferença será de R$ 0,08 por litro.
Em evento em São Paulo, executivos da BR Distribuidora disseram torcer contra a escalada dos preços do petróleo, com medo de impactos negativos nas vendas de combustíveis.
"Nossa remuneração se dá muito mais pelo giro, por isso a preocupação. Sobe o preço, o volume cai. O preço cai, aumenta o volume. A gente no giro aposta mais desse segundo cenário, com preço menor e volume um pouco maior", disse o presidente do conselho de administração da companhia, Augusto Cruz.
No fim de 2017, a BR passou a ter ações em Bolsa, após a venda de 28,75% do capital, em operação que rendeu R$ 5 bilhões à Petrobras.
Fonte: Folha SP