Tema discutido na 20ª Navalshore abordou cenário de desaparecimento de empresas brasileiras frente a contratações de projetistas estrangeiras que entregam pacotes fechados de equipamentos
A recuperação do mercado de navipeças também depende do resgate do segmento de projetos, que praticamente desapareceu nos anos recentes de crise do setor naval. Um dos problemas enfrentados por essa indústria no Brasil é que os projetos contratados de empresas estrangeiras são entregues com pacotes fechados e especificações que beneficiam apenas os fornecedores desses países.
Essa foi uma das conclusões do painel “Do estaleiro ao fornecedor: como integrar a cadeia de navipeças na retomada naval”, que discutiu, no segundo dia da Navalshore 2026, as oportunidades para empresas de navipeças. O presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena), Luiz Carlos Barradas, moderou o painel e questionou se não é necessário envolver a engenharia naval brasileira nas discussões sobre a retomada do setor naval.
O presidente da Câmara Setorial de Equipamentos Navais, Offshore e Onshore (CSENO) da Abimaq, Leandro Pinto, afirmou que empresas de engenharia como a Projemar tinham renome e capacidade plena de projetar construções. Ele destacou que as oportunidades do cenário atual são reais, mas o segmento enfrenta o problema dos pacotes fechados em que o design sai de graça, sendo compensado pela importação de partes e peças.
“As empresas brasileiras de engenharia eram parte estratégica do nosso conhecimento e de desenvolvimento da capacidade fabril. Sem demanda, elas acabaram. Isso é uma questão de política de Estado. Precisamos ser bons em alguma coisa. Há uma coligação da Abimaq com a Associação Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi). Os desenhos estão vindo de fora. É preciso ter um incentivo à engenharia e a hora é agora, junto com a retomada do setor naval”, defendeu Pinto.
O superintendente de conteúdo local na Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Gustavo Freitas Tinoco, disse que o momento é de reconstrução de tudo o que foi destruído nos últimos 10 anos. Ele considera que o cenário é positivo para o conteúdo local porque o Brasil tem um parque industrial bem estabelecido e pelo fato de o país estar entre os dez maiores produtores de petróleo.
“Desde 1999, as obrigações contratuais de percentuais mínimos de conteúdo local geraram, somente nos últimos cinco anos, R$ 200 bilhões e têm perspectiva de gerar nos próximos cinco anos R$ 600 bilhões de investimentos. Mas precisamos de novos leilões e novas áreas. No segmento de FPSOs, o Brasil responde por um terço da demanda global. A política de conteúdo local gera demanda até onde ele não é exigido”, destacou Tinoco.
Ele ressaltou que o papel de fiscalização da ANP para o cumprimento dos percentuais mínimos é efetivo. Há desafios nos FPSOs, que têm um percentual de 25% e onde há muita contratação de EPCistas, que levam o conteúdo local para fora. “No Brasil, somente na construção dos módulos, já se atinge 25% de conteúdo local. Nos últimos anos, tivemos Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) para converter multas pelo não cumprimento do conteúdo local em novas oportunidades de investimento. A regulamentação da cláusula de preferência ao fornecedor local teve mais de 180 contribuições à consulta pública”, completou Tinoco.
O presidente executivo da Associação Brasileira das Empresas da Economia do Mar (Abeemar) e vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e recuperação Naval e Offshore (Sinaval), João Augusto Azeredo, afirmou que os estaleiros estão no cerne da economia do mar. “Estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca como aspectos socioeconômicos da indústria naval: atração de investimentos, criação de empregos e integração da cadeia produtiva. E, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), de cada R$ 3 bilhões investidos pela indústria naval, há um impacto de R$ 1 bilhão no Produto Interno Bruto”, destacou Azeredo.
Ele chamou a atenção que vivemos um cenário geopolítico complexo e a China já domina 70% da carteira de encomendas de navios, o que tem feito países como Japão e a Coreia reagirem por meio da criação de incentivos. “Os EUA criaram um Fundo da Marinha Mercante e a Índia aprovou incentivos de US$ 8 bilhões. O mundo todo está se movimentando e os estaleiros estão lotados. O Brasil tem a demanda da Petrobras. A Abeemar está criando uma plataforma de peças, em parceria com a Petrobras, que será lançada na Rio Oil & Gas”, anunciou o presidente da Abeemar.
