O papel exigido da estatal Valec no novo modelo de concessão para o setor ferroviário está sendo apontado por especialistas e fontes do mercado como o maior risco do programa, que tem o potencial de gerar custos bilionários para o governo.
Pelo pacote, o governo cobrirá integralmente, por 30 anos, as despesas com a construção e a manutenção de 10 mil quilômetros de ferrovias, estimadas em R$ 91 bilhões, e ficará com o direito de revender toda a capacidade de transporte das vias.
Conforme a Folha informou, o governo trabalha com um risco de não vender até 40%, gerando um potencial deficit de até R$ 36 bilhões.
Mas o prejuízo pode ser maior, porque o mercado tem dúvidas sobre a capacidade da Valec de fazer negócios.
Conseguir clientes para a ferrovia demanda um esforço de comercialização que a Valec não tem e que dificilmente uma estatal poderá ter, avalia Peter Wanke, coordenador do Centro de Logística da Coppead/UFRJ.
Ele diz que os negócios exigem profissionais altamente qualificados, com altos salários e bônus pelas vendas.
Outro ponto contra é o histórico da estatal. Antiga subsidiária da Vale, a Valec passou a operar de forma independente na década de 1980, para construir a Norte-Sul.
A ferrovia tem um trecho ínfimo pronto, erguido sob seguidas denúncias de irregularidades. Outro projeto, a concessão de um trem-bala SP-RJ para um grupo italiano, apresentou problemas.
Para Paulo Resende, coordenador do núcleo de infraestrutura e logística da Fundação Dom Cabral, o risco é que, se a venda não for adequada, o transporte por trilho continuará concentrado em clientes com carga de alto volume e baixo valor (em geral, produtos agrícolas e minerais a granel).
Por enquanto, a Valec continua se preparando para ser uma grande construtora: faz concurso para contratar 206 engenheiros.
O presidente da Valec, José Castello Branco, diz que a empresa vai precisar de engenheiros para fiscalizar os projetos e as obras e certificar máquinas e maquinistas. Segundo ele, a Valec "não vai ficar atrás de uma escrivaninha esperando o cliente".
"Temos que apresentar soluções de mercado para vencer este desafio", afirmou.
Fonte: Folha de S.Paulo / Dimmi Amora
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