O ano de 2025 entrou para a história do comércio exterior brasileiro como um período de grandes conquistas na exportação de produtos refrigerados — os chamados reefer, que incluem carnes, frutas e outros alimentos que precisam de temperatura controlada durante o transporte. Mesmo enfrentando desafios sanitários e mudanças no cenário internacional, o Brasil mostrou força, organização e capacidade de adaptação. O resultado foi um crescimento expressivo tanto em volume quanto em faturamento.
- Frango: superando a crise sanitária
A exportação de carne de frango atingiu 5,32 milhões de toneladas em 2025, um aumento de 30 mil toneladas em relação a 2024. Em valores, isso representou US$ 9,79 bilhões em receitas. Esse desempenho é ainda mais relevante porque o setor enfrentou, em maio, um foco de gripe aviária no Rio Grande do Sul. Naquele momento, vários países suspenderam temporariamente a compra do frango brasileiro. A normalização só começou em agosto, com a reabertura gradual dos mercados.
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Os principais destinos do frango brasileiro em 2025 foram:
Emirados Árabes Unidos – 480 mil toneladas
Japão – 403 mil toneladas
Arábia Saudita – 397 mil toneladas
África do Sul – 336 mil toneladas
Filipinas – 264 mil toneladas
- Carne bovina: crescimento histórico
A carne bovina foi o grande destaque do ano. O Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas, uma alta de 21% em relação a 2024, faturando impressionantes US$ 18 bilhões — 40% a mais que no ano anterior.
Os principais compradores foram:
China – 1,68 milhão de toneladas
Estados Unidos – 272 mil toneladas
União Europeia – 129 mil toneladas
Pela primeira vez, a carne bovina alcançou o 4º lugar na pauta de exportações brasileiras, ficando atrás apenas de minério de ferro, petróleo e soja, e à frente do café. Para 2026 a China anunciou um sistema de quotas (limites) para a importação de carne bovina. Ao Brasil foi concedida uma cota de 1,1 milhão de toneladas. O que ultrapassar esse volume será taxado com uma tarifa extra de 55%.
- Carne suína: crescimento consistente
A produção brasileira de carne suína chegou a 5,6 milhões de toneladas em 2025. As exportações somaram 1,5 milhão de toneladas – um crescimento de 10% em relação a 2024 – sendo que os principais mercados foram: China, Filipinas, Chile, Japão e México.
- O Mercosul e os contêineres refrigerados
Somando bovinos, frango e suínos, estimamos que os países membros do Mercosul tenham exportado em 2025 o equivalente a:
Bovino: 205.000 FEU¹
Frango: 203.000 FEU
Suíno: 51.000 FEU
Na prática, isso significa que a região já embarca quase 1.300 FEU (contêineres refrigerados de 40 pés) por dia apenas com carnes, sendo o Brasil sozinho responsável por cerca de 1.100 FEU/dia!
¹ FEU (forty equivalente unit) = equivale a dois contêineres de 20 pés.
- Frutas frescas: mais volume e mais valor
As exportações brasileiras de frutas frescas cresceram 20% em volume em 2025 e alcançaram US$ 1,4 bilhão em faturamento, um aumento de 12% em valor.
O melão foi a fruta mais exportada em volume, com 167 mil toneladas. Um caso interessante é o da Agrícola Famosa, maior produtora brasileira do setor, que desde 2023 voltou a usar navios totalmente refrigerados (full reefer) para embarcar a maior parte do seu volume via o porto de Natal, com saídas semanais durante a safra (de agosto a fevereiro).
Entre as frutas embarcadas em contêineres, os destaques foram:
Manga: mais de 12 mil FEU
Limão: 7.500 FEU
Uvas: mais de 4.100 FEU
Vale destacar que a manga enviada aos EUA manteve o crescimento, mesmo após o aumento de tarifas imposto desde agosto pelo governo americano.
Outros produtos como gengibre, maçã, banana e abacate também cresceram entre 10% e 15% em relação a 2024.
- O Brasil no cenário mundial das frutas
Tradicionalmente, China e Índia são os maiores produtores mundiais de frutas em termos de volume, enquanto Espanha e Estados Unidos lideram em valor exportado.
Uma novidade de 2025 que chamou atenção foi a China ultrapassar o Chile nas exportações de uvas frescas e já se aproximar do líder mundial, o Peru. Cerca de 60% das uvas chinesas vão para países vizinhos como Vietnã, Tailândia e Indonésia, resultado de fortes investimentos em qualidade.
- Contêineres refrigerados: frota global em expansão
A frota mundial de contêineres refrigerados chegou a 3,87 milhões de TEU’s em 2024 e deve ultrapassar 4,1 milhões de TEU’s até 2027.
Uma parte significativa desses equipamentos não pertence às companhias de navegação, mas à empresas de leasing. Triton e Textainer, por exemplo, controlam cerca de 35% do mercado global de contêineres reefer de 40 pés.
Entre os armadores, as maiores frotas são:
Maersk: 800 mil TEU
MSC: 600 mil TEU
CMA CGM: 500 mil TEU
Hapag-Lloyd: 350 mil TEU
- Mercosul–União Europeia: um acordo que pode mudar o jogo
Depois de 25 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia está muito mais próximo de entrar em vigor (resta agora um parecer jurídico e a ratificação dos países membro). A principal resistência sempre veio do setor agrícola europeu, tradicionalmente muito protegido.
O Brasil já é hoje o segundo maior fornecedor de produtos agrícolas para a UE, atrás apenas da China. Com o acordo, a União Europeia reduzirá as tarifas de importação para 77% dos produtos agrícolas vindos do Mercosul.
Produtos como café, frutas frescas, peixes e óleos vegetais terão suas tarifas reduzidas gradualmente a zero em um prazo de 4 a 10 anos. Já a carne bovina e o frango, considerados sensíveis, entrarão no sistema de cotas, com limites de volume.
- Conclusão
O desempenho de 2025 mostra que o Brasil não é apenas um gigante agrícola, mas também uma potência logística no segmento reefer. Carnes e frutas puxaram recordes históricos, mesmo em meio a crises sanitárias, barreiras comerciais e mudanças no equilíbrio global da oferta. Com a prevista ampliação da frota refrigerada, novos acordos comerciais e a crescente demanda por alimentos de qualidade, o país entra em 2026 com bases sólidas para seguir expandindo sua presença nos mercados mais exigentes do mundo.
Henrik Simon é sócio da Solve Shipping.

















