A globalização, tal como o mundo a conheceu nas últimas décadas, parece estar entrando em uma nova fase. Durante mais de trinta anos, o comércio internacional foi guiado quase exclusivamente pela busca da máxima eficiência: produzir aonde fosse mais barato, transportar em grandes volumes e operar cadeias logísticas cada vez mais integradas. O modelo do just in time transformou-se praticamente em um mantra da economia global.
Hoje, porém, o cenário é diferente.
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Pandemia, guerra na Ucrânia, tensões no Mar Vermelho, disputa comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China, sanções econômicas e aumento da insegurança geopolítica vêm alterando profundamente a lógica das cadeias globais de suprimento. Aos poucos, o comércio mundial começa a trocar parte da eficiência absoluta por resiliência estratégica.
Nesse contexto, a própria China — principal parceiro comercial do Brasil — começa a rever prioridades estratégicas. Inserido em seu 15º Plano Quinquenal (2026–2030), o país passou a priorizar a soberania alimentar, ampliando investimentos em agricultura urbana, proteína microbiana, milho de alta proteína e outras tecnologias destinadas a reduzir sua dependência externa. Segundo recente reportagem do Valor Econômico, projeções indicam que a China poderá reduzir significativamente suas importações de soja até 2030, ao mesmo tempo em que expande novas formas de produção alimentar. Um estudo da consultoria Systemiq estima que as importações chinesas de soja poderão cair 25% até 2030 — redução da qual o Brasil absorveria cerca de 36% das perdas, enquanto os Estados Unidos responderiam por aproximadamente 80%.
A mesma reportagem projeta ainda que, até 2040, o país poderá tornar-se exportador líquido de aves, leite, ovos e peixes, além de assumir a liderança global em carnes cultivadas
O tema merece atenção especial porque, ao longo dos últimos 40 anos, Brasil e China construíram uma relação de complementaridade quase perfeita: de um lado, um Brasil abundante em recursos naturais e commodities; de outro, uma China industrializada e com gigantesca demanda por alimentos e matérias-primas.
Enquanto o Brasil acomodava-se relativamente bem nesse modelo exportador, a China nunca deixou de planejar o longo prazo. O país investiu pesadamente em tecnologia, pesquisa científica e inovação, buscando reduzir gradualmente sua dependência externa em áreas consideradas estratégicas.
Paralelamente, o mundo parece caminhar para uma reorganização dos fluxos produtivos, industriais e logísticos em blocos de maior afinidade política, estratégica ou geográfica.

Nesse novo cenário, o Brasil continua despertando atenção crescente. Poucos países reúnem simultaneamente disponibilidade de alimentos, energia, água, terras agricultáveis, minerais estratégicos e relativa neutralidade diplomática. O país consolidou-se como fornecedor essencial de proteínas, grãos, açúcar, celulose, minério e diversas commodities fundamentais para o abastecimento global.
Entretanto, o novo ambiente geopolítico mostra que grandes potências passaram a buscar maior autonomia estratégica em setores considerados críticos, inclusive na segurança alimentar. Isso não reduz imediatamente a relevância brasileira, mas indica que depender apenas da expansão natural da demanda talvez já não seja suficiente no longo prazo.
E aqui surge uma das grandes fragilidades nacionais: a ausência de planejamento estratégico consistente e de longo prazo. Estamos às vésperas de mais uma eleição geral e impressiona a escassez de debates profundos sobre logística, infraestrutura, inserção internacional e competitividade.
O Brasil precisará preparar-se logisticamente para ocupar posições estratégicas nesse novo mundo fragmentado. Será necessário depender menos da concentração excessiva no mercado chinês e ampliar presença em novos destinos. Nesse contexto, o acordo Mercosul-União Europeia ganha relevância crescente. Além disso, a África desponta como um mercado de enorme potencial. Segundo o consultor Lars Jensen, o continente poderá acrescentar cerca de 1 bilhão de habitantes até 2050 e atingir volumes de importação de contêineres comparáveis aos da Europa atual.
Ao mesmo tempo, as exportações crescem, os navios aumentam de tamanho e a pressão sobre os corredores logísticos torna-se cada vez maior. Contudo, a infraestrutura brasileira avança em velocidade muito inferior à demanda.
O paradoxo torna-se evidente: o Brasil transformou-se em potência exportadora apesar de sua infraestrutura logística — e não graças a ela!
A situação torna-se ainda mais delicada em um ambiente internacional menos previsível. O Mar Vermelho, o Estreito de Ormuz e até o Canal do Panamá voltaram ao centro das preocupações globais. Os custos de combustível explodiram, rotas estão sendo alteradas, seguros marítimos aumentaram, escalas tornam-se menos previsíveis e os congestionamentos reaparecem em diferentes pontos do sistema logístico internacional.
Essas tensões vêm acelerando projetos destinados a reduzir a dependência de alguns dos principais gargalos da navegação mundial. Corredores ferroviários e intermodais no Oriente Médio procuram criar alternativas parciais ao Canal de Suez e ao Mar Vermelho. A China continua expandindo sua Belt and Road Initiative, diversificando corredores terrestres através da Ásia Central e do Oceano Índico. Na América do Sul, as limitações recentes do Canal do Panamá reacenderam discussões sobre corredores bioceânicos ligando Atlântico e Pacífico.
Nada disso significa o desaparecimento imediato das rotas tradicionais. Entretanto, demonstra que a geopolítica entrou definitivamente no cerne do planejamento logístico internacional.
O shipping mundial deixou de ser apenas uma questão de eficiência econômica. Tornou-se também uma questão estratégica.
Ao mesmo tempo a busca por eficiência, qualidade de serviço e maior previsibilidade sobre a cadeia logística tem levado a uma crescente concentração do setor de navegação e vêm transformando a dinâmica competitiva da cadeia logística global.
Nesse contexto, países exportadores como o Brasil passam a enfrentar o desafio de preservar sua competitividade e eficiência logística em um ambiente cada vez mais integrado, exigente e orientado por escala, confiabilidade e previsibilidade operacional.
Outro aspecto relevante nesse novo cenário é o posicionamento diplomático brasileiro. O país procura preservar relações econômicas sólidas tanto com a China quanto com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que amplia sua participação nos BRICS e mantém relativa autonomia internacional. Essa estratégia pode representar uma vantagem importante em um mundo cada vez mais multipolar, embora sua condução tenda a tornar-se mais delicada à medida que a fragmentação econômica, geopolítica e a polarização ideológica avance.
Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, o professor Jeffrey Sachs observou que, “no atual mundo multipolar, se a América Latina tiver de escolher entre Estados Unidos e China, a tendência é que a economia asiática dite parcela crescente do futuro mundial”. Sachs também defende maior integração econômica e política latino-americana, mesmo diante das diferenças ideológicas existentes na região.
A rivalidade entre China e Estados Unidos, por sua vez, já ultrapassa a esfera estritamente comercial. Hoje, ela envolve tecnologia, energia, minerais críticos, inteligência artificial, segurança e influência geopolítica. Nesse contexto, cadeias produtivas, investimentos e corredores logísticos passam gradualmente a refletir interesses estratégicos nacionais.
O Brasil reúne condições objetivas para beneficiar-se dessa reorganização global. A crescente demanda internacional por alimentos, energia limpa, minerais estratégicos e combustíveis renováveis tende a ampliar a relevância do país no abastecimento mundial. Fatores como disponibilidade de recursos naturais, capacidade produtiva e relativa estabilidade institucional reforçam seu potencial como parceiro estratégico em um ambiente internacional mais preocupado com segurança e resiliência.
Entretanto, recursos abundantes, por si só, não garantem competitividade. Sem avanços consistentes em infraestrutura logística, expansão portuária, melhoria dos corredores ferroviários, previsibilidade regulatória e maior agilidade nos investimentos em infraestrutura aquaviária, o país corre o risco de continuar crescendo apoiado sobre gargalos cada vez mais críticos.
Nos últimos anos, alguns projetos importantes começaram finalmente a avançar. Concessões de canais de acesso, novos investimentos ferroviários e ampliação de terminais demonstram que parte do setor público e privado compreende a urgência do problema. Ainda assim, a velocidade das transformações globais talvez esteja sendo maior do que a capacidade brasileira de adaptação.
O mundo está reorganizando suas cadeias logísticas em tempo real.
A questão central é simples: o Brasil pretende ocupar posição estratégica nesse novo desenho global ou continuará exportando volumes crescentes pelos mesmos corredores saturados de sempre, com perda de competitividade, onerado pelo “custo Brasil”?
Talvez o grande desafio brasileiro não seja apenas produzir mais, mas desenvolver uma visão logística compatível com a nova geografia econômica e geopolítica que começa a emergir no século XXI.
Robert Grantham é sócio da Solve Shipping Intelligence.













