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Artigo - Economia, geopolítica e planejamento estratégico

É raro encontrar colunistas que não permeiem seus comentários com influências ideológicas, ou seja, segundo suas crenças, às vezes defendendo o indefensável.

Ainda bem que há os que buscam fazer análises pragmáticas, competentes e, principalmente, com conhecimento de causa. Emanuel Pessoa, advogado, negociador e diplomata corporativo, é um deles. Seus comentários aliam considerações técnicas objetivas, acessíveis e, de certa forma, corajosas, na medida em que se contrapõem ao “senso comum” do setor, correndo o risco de ser “cancelado” a qualquer momento, por conta disso.


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Ele trabalhou em Pequim junto à Escola de Relações Internacionais do Governo Chinês, lecionando Economia e Relações Internacionais para a próxima geração de diplomatas da China, como explica seu portal na internet.

Recentemente, numa participação em programa radiofônico de notícias, ele falou sobre perspectivas das exportações brasileiras. Especificamente sobre a China, nosso atual principal parceiro econômico, ele comentou sobre as exportações do agronegócio para aquele país.

Sobre soja, ele falou do equívoco de quem afirma que os chineses consomem muita soja. Afirmou que a soja é majoritariamente utilizada como ração para porcos, que são a proteína animal mais consumida por lá.

Também disse que, tanto na China como nos EUA, tem ocorrido redução do consumo de proteína vegetal, que vem sendo progressivamente substituída pelo de proteína animal.

Além disso, o crescimento da produção de soja na China tende a aumentar de tal monta que, no futuro, as importações tendem a ser substancialmente reduzidas.
Nesse contexto, ele sugere que o Brasil precisa buscar novos mercados desde já e aponta os que serão potências econômicas com esse potencial. Entre eles estão a Índia, a Indonésia e o Egito.

Essa tendência pode colocar o agronegócio, “carro-chefe” das exportações brasileiras, em situação de risco, que também pode comprometer a economia do Brasil.

Para atenuar esse risco, Emanuel Pessoa destacou a importância da reindustrialização do país. Criticou as atitudes de governos que tornaram a produção nacional tão cara e cheia de restrições à sua expansão e diversificação, que as importações de produtos manufaturados passaram a ser mais atrativas.

O curioso é que exportamos granéis vegetais e minerais, commodities de baixo valor agregado, para importarmos produtos industrializados, inclusive de alta tecnologia, feitos a partir deles.

A Reforma Tributária pode simplificar a arrecadação de tributos, mas não necessariamente reduzirá os custos de produção. Há quem diga que a carga tributária tende a aumentar. Além disso, a forma como está prevista a centralização de sua distribuição do ISS prejudicará sensivelmente a sustentabilidade de municípios, sem compensações pela potencial perda de receita. Nesse cenário, a alternativa é diversificar a economia regional.

Há muito tempo defendo a implantação de atividades de porto-indústria nas proximidades do Porto de Santos, sob forma de Zonas de Processamento de Exportação. Foi o que a China fez, a partir do final da década de 1970. Isso vale para todas as cidades portuárias do país!

O regime de ZPE, aliado à redução de custos logísticos, tende a melhorar a competitividade das exportações da produção industrial do Brasil. Mas que produção industrial?

O ideal, até em nome do desenvolvimento do país, é que essa produção seja de alta tecnologia, alto valor agregado e baixo impacto ambiental, fomentando a pesquisa científica em relação aos nossos recursos naturais. O Brasil dispõe de inteligência para isso, tanto é que há especialistas brasileiros atuando em vários países, que lhe proporcionam condições ideais para o desenvolvimento de seus estudos.

Mesmo internamente, o agronegócio e as indústrias aeronáutica e militar são exemplos da excelência de brasileiros no que se refere a tecnologias de ponta e inovadoras.

E, por falar em estudos, também é fundamental que a qualidade da educação, desde o Ensino Fundamental, seja incrementada, incentivando o mérito.
Inovação!

A China evoluiu economicamente a partir da exigência de transferência de tecnologia para quem tivesse interesse em usufruir das vantagens de suas Zonas Econômicas Especiais, e investimento na formação de chineses nas melhores universidades do mundo, que hoje atuam na produção de patentes.

É verdade que o regime chinês é centralizador, um regime comunista que entendeu que a economia não é uma vilã, mas um instrumento que contribui significativamente para a estabilidade social do país. O pragmatismo econômico chinês, iniciado nos tempos de Deng Xiaoping, superou o comunismo de cartilha dos tempos de Mao Tsé-Tung.

O modelo chinês, fortemente subsidiado pelo governo central, torna seus produtos altamente competitivos, a ponto do governo brasileiro ter aumentado as alíquotas do Imposto de Importação dos produtos importados daquele país.

Porém, a dependência das exportações para a China, ainda mais em tempos de “tarifaço” dos EUA, coloca o Brasil numa posição desfavorável, tanto no contexto comercial como no geopolítico.

A China pode ser um exemplo no âmbito econômico, mas quem defende o modelo de governo chinês talvez esteja mais interessado no poder hegemônico do que no planejamento estratégico de Estado. Entretanto, considerando seus pleitos sociais, jamais se enquadrariam no sistema de trabalho chinês.

Além disso, houve uma sensível mudança no “colonialismo ideológico” dos tempos da Guerra Fria. Em vez de incentivar conflitos internos para vender armas e promover dependência das “metrópoles” (EUA e URSS), a China optou por incrementar sua economia interna e exportar seus produtos de forma competitiva.

Quando encontra restrições tributárias ou identifica oportunidades de investimentos de seu interesse, ela negocia a implantação de suas indústrias e equipamentos logísticos nos países.

Estrategicamente, esses investimentos ocorrem em países que não têm profissionais suficientes, em quantidade e competência, para ocupar as funções construtivas e operacionais desses ativos. Assim, além dos equipamentos, profissionais chineses também são “exportados”.

A “Nova Rota da Seda” faz parte desse processo, e o Brasil está nesse plano. No entanto, não parece que a China esteja interessada em expandir o comunismo pelo mundo, conquistando “corações e mentes”. Eles não querem mais comunistas, só mais consumistas.

Lá, e onde quer que implantem seus projetos logísticos e produtivos, seu principal interesse é manter a estabilidade interna. É uma maneira de manter sua estrutura de poder para além da opressão violenta e indigência estratégica que caracteriza ditaduras, sobretudo de países de mesma ideologia no hemisfério sul, mas também na Ásia.

Sempre preocupa que alguns entendam que uma ditadura, qualquer que seja a linha ideológica, é o meio para alcançar resultados mais rápidos, sem os questionamentos que regimes democráticos disponibilizam. Em verdade, esse modelo serve basicamente para manter o poder pela violência psicológica de doutrinação e pela perseguição, reeducação ou silenciamento de opositores.

As Coreias são um exemplo de dois modelos em que os resultados são totalmente diferentes. De um lado, uma ditadura extremamente opressora, economicamente dependente, que idolatra seu líder; do outro, uma democracia com todos os defeitos e virtudes desse regime, mas com resultados socioeconômicos que são referência de excelência no mundo.

Aliás, Coreia do Sul e China se equivalem quando se trata de resultados, provando que regimes democráticos em que a formação educacional de alto nível, o planejamento estratégico e os investimentos em pesquisa e produção são priorizados, apresentam resultados positivos e duradouros. Os países ocidentais se pautavam por isso.

O Brasil tem potencial para se desenvolver de forma sustentada, mas precisa superar disputas político-ideológicas, proselitismos ideológicos e legislações que têm engessado, até minado, esse potencial.


260715-adilson-luiz-goncalves.jpgAdilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras.






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