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Degradação ambiental e pandemia

Com a chegada das vacinas de prevenção ao contágio do coronavirus, já conseguimos ver uma luz no final do túnel. No entanto, a luz pode ser apagada se o país não tornar mais rígidos os protocolos de segurança para controle das novas mutações do Covid-19. Teorias cientificas traçam relação entre o surgimento de novas pandemias ao aumento da degradação ambiental, ameaças aos ecossistemas e da vida selvagem.

É consenso na ciência que a perda de áreas com florestas pode levar à emergência de novos vírus e bactérias perigosos contra os quais a humanidade tem pouca defesa. O fato é que são as formas de exploração da natureza, a destruição ambiental em larga escala, as condições higiênicas de certas atividades econômicas, as mudanças climáticas, a caça e o tráfico de animais silvestres que levam ao aparecimento de novas epidemias e pandemias.

À medida que o COVID-19 se espalha pelo mundo, fica mais claro como as doenças infecciosas estão relacionadas às mudanças ambientais. Cientistas do One Health Institute confirmam que novas pandemias podem vir a surgir no mundo. Os vírus já estão sofrendo mutações mais rapidamente do que se esperava.

Não há dúvidas de que toda intervenção humana na natureza gera impactos ambientais. A expansão no mercado portuário também não deixaria de agredir o meio ambiente. Apesar de a atividade portuária ser de extrema importância para o desenvolvimento econômico, de outro lado as obras de implantação podem gerar vários tipos de impactos. A erosão, o assoreamento marítimo, a contaminação de ambientes aquáticos, além do desmatamento levam ao desequilíbrio ecológico de espécies, fragmentando o habitat natural dos animais silvestres da região do projeto portuário.


TMSA


O avanço da urbanização em áreas ambientais protegidas está levando ao aumento do contato entre seres humanos e animais selvagens. E daí a mais oportunidades de mutação viral.

Um exemplo típico da invasão de obras portuárias em áreas ambientalmente sensíveis é do Terminal Portuário de Múltiplo Uso, da Baía Terminais, em Aratu, região metropolitana de Salvador. Além de implicar considerável supressão de vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, as operações do terminal poderão trazer impactos diretamente na Baía de Todos os Santos, que também goza de proteção diferenciada. As obras provocaram desmatamento de grande extensão de manguezais na região, uma das vegetações mais importantes do ecossistema.

Outro caso grave é o empreendimento bilionário da construção do novo terminal portuário em São Luís (MA), o TUP Porto São Luís S/A, pertencente ao grupo paulista WTorre. O porto privado seria construído pela WPR São Luís Gestão de Portos e Terminais em parceria com uma multinacional chinesa. Boa parte da área que será usada na construção do porto já foi desmatada e cercada.

A área a ser instalada o porto privado é rica em manguezais, vegetação que pode ser destruída pelo empreendimento. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público do Maranhão, os envolvidos praticaram diversas condutas enquadradas na Lei de Crimes Ambientais, como: morte de animais silvestres; danificação de floresta em Área de Preservação Permanente (APP) e manguezais; retirada de grande extensão de vegetação; irregularidades no processo de licenciamento ambiental. Indica também o descumprimento das condicionantes impostas nos documentos de licença prévia, licença de instalação e autorizações para supressão de vegetação e captura e transporte de fauna silvestre.

Outro grave impacto ao meio ambiente provocado por nova instalação portuária é o projeto de construção do Porto Sul, em Ilhéus (BA). Dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa Encantada, está em curso a implantação do Complexo Portuário e de Serviços Porto Sul. O terminal portuário a ser construído no litoral norte de Ilhéus, na Costa do Cacau, entre as localidades de Aritaguá, Sambaituba e Ponta da Tulha, conta mais de 200 tipos de impactos a serem causados com a construção do porto. O local é o que resta da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

O corredor liga duas Unidades de Conservação de Proteção Integral (UCPI): o Parque Estadual da Serra do Conduru possui um alto potencial para conservação da biodiversidade e altíssima diversidade biológica, com cerca de 458 espécies diferentes de árvores por hectare. Este é um dos índices mais elevados do mundo com altos níveis de endemismo. Já o Parque Municipal Boa Esperança é o maior em área urbana, localizado na zona urbana de Ilhéus. Agrega uma biodiversidade de 437 hectares de mata virgem, é refúgio de espécies raras e santuário de água doce. A Unidade de Conservação (UC) representa um dos mais importantes blocos de remanescentes florestais de mata Atlântica da Costa Nordestina.

Já no sul do país se encontra o projeto parado da construção de um porto privado no município do Pontal do Paraná. O projeto de instalação do Porto Pontal Paraná Importação e Exportação S.A. ficaria próximo à Ilha do Mel, um patrimônio Mundial da Humanidade e reconhecida pela Unesco. O Porto Pontal Paraná nunca saiu do papel, mas para ser construído seria feita uma estrada no meio da Mata Atlântica.

De acordo com pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, existem mais de 1,6 milhão de vírus à espreita em hospedeiros de animais em todo o mundo e mais de 650 mil têm potencial para infectar pessoas. De fato, quase 75% das doenças que afetam os seres humanos hoje provêm da vida selvagem. Após as queimadas, desmatamento ou supressão de vegetação de áreas para construção de empreendimentos, o habitat alterado em geral oferece menos alimento, levando os animais silvestres a procurar comida em comunidades humanas vizinhas, criando vetores de bactérias, vírus e parasitas zoonóticos que são transmissíveis de um animal a um ser humano. Além disso, pensa-se que o SARS-CoV-2, o vírus responsável pela atual pandemia, tenha se originado em morcegos e acredita-se que tenha sido transmitido aos seres humanos através de animais selvagens para venda em um mercado ao ar livre em Wuhan, China.

O Brasil, por ser tropical, é o país com maior número de espécie de morcegos, que preferem para o seu habitat locais quentes e úmidos. Quanto mais numerosos os novos hospedeiros, melhor para os vírus. Porém, eliminar os morcegos não é a solução. Além de essenciais à preservação do ecossistema por serem importantes polinizadores e dispersores de sementes, são protegidos por lei e a sua captura ou extermínio é crime ambiental (Lei Nº 9.605/98). O problema só iria se agravar.

Segundo pesquisa da ONU, mamíferos voadores estão ligados a doenças como a síndrome respiratória aguda grave (Sars) e ao vírus ebola. Atualmente, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) faz estudos com morcegos e outros animais silvestres para impedir nova pandemia. Mais de 200 tipos de coronavírus já foram descobertos em morcegos no mundo todo. Além de morcegos, o estudo inclui primatas, roedores, cobras, preguiças e aves.

Bianca MesquitaBianca Alves de Mesquita é bióloga (PUC-Rio) e mestranda em Biodiversidade em Unidades de Conservação pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro – JBRJ.