Esses últimos 15 anos foram marcados principalmente pela ascensão da China e as suas implicações no comércio mundial. A partir de 2001, a China aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e isso trouxe como consequência uma redução no valor dos produtos no mercado mundial de uma maneira geral.
O país adquiriu grande peso no comércio internacional, o que acabou trazendo uma redução de inflação, principalmente em países mais desenvolvidos, com implicações até no mercado financeiro, com queda de juros e do custo de captação. Foi um momento de bastante fomento, tanto nas transações como no mercado.
Para o Brasil, houve uma valorização das commodities, com aumento significativo na pauta de exportações. Isso beneficiou, principalmente na primeira metade da década passada, a Votorantim, uma empresa com grande exposição na área de metais.
O aumento das transações das commodities e do valor dos produtos exportados acabou acarretando melhores termos de troca por parte do Brasil. Aliado a isso, já na segunda metade da década passada, havia uma política econômica que procurava utilizar a taxa de câmbio como instrumento de controle da inflação, provocando uma forte valorização do real.
A área industrial brasileira sofreu uma grande perda de competitividade não apenas como resultado da taxa de câmbio, mas também em função de todo o sistema de impostos, infraestrutura, educação. Esses foram os principais impactos que tivemos ao longo dos últimos 15 anos.
A Votorantim, especificamente, intensificou bastante a internacionalização, mas cresceu muito também no mercado brasileiro de acordo com o nosso portfólio de negócios.
Alguns setores como construção civil, estimulada pelo programa Minha Casa, Minha Vida, aumentaram a demanda de produtos, com destaque para o cimento. Fizemos uma série de projetos de expansão na área de cimento em várias regiões do Brasil e crescemos entre 40% e 50% em termos de capacidade durante o período. Os investimentos em cimento, nos últimos seis anos, superaram R$ 11 bilhões. Mas também intensificamos a nossa internacionalização. Nossas atividades externas já representam cerca de 30% do Ebitda.
A internacionalização foi uma questão relevante. Crescemos muito em cimento no exterior, constituímos uma importante plataforma no Peru para metais, que coincidiu com a perda de competitividade do Brasil na área de metais e mineração. Também expandimos as operações de aço e suco de laranja no exterior.
Com relação à crise de 2008, em um primeiro momento tivemos uma adequação do nível de investimento, mas logo em seguida começamos a aproveitar algumas oportunidades para implementar investimentos na área de cimentos, aqui no Brasil, e para fazer algumas consolidações. Essas parcerias moldaram empresas de grande escala, principalmente nos setores de celulose e suco de laranja.
Hoje, o cenário internacional, com a globalização, trouxe uma interligação das cadeias de produção e ao mesmo tempo um livre fluxo de capitais, o que faz com que os excessos sejam corrigidos de maneira muito abrupta, principalmente com relação ao fluxo de capitais no mundo inteiro. O mundo empresarial tem que contemplar essas mudanças abruptas que vão continuar ocorrendo. Mas isso tem trazido uma série de oportunidades e o importante é manter a visão de longo prazo, o que temos feito com muita consistência.
No ano passado, investimos cerca de R$ 2,4 bilhões e este ano vamos ultrapassar esse montante, com investimentos não apenas aqui no Brasil, com crescimento orgânico principalmente em cimento, mas também no exterior, em países como Estados Unidos, Turquia e da América do Sul. O montante vai exceder R$ 3 bilhões este ano.
Além disso, nós tivemos um ajuste do câmbio, que abre novas perspectivas para alguns setores. Pela primeira vez em alguns anos, estamos voltando a contemplar a possibilidade de fazer um investimento de grande magnitude num projeto focado em exportação. Não gostaria de minimizar a questão da redução da competitividade no setor industrial Esse é um grande tema. E as reformas têm que voltar à pauta para que o Brasil volte a ter crescimento e relevância no cenário internacional.
Fonte: Valor Econômico/Raul Calfat
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