A falta de tempo para analisar os dados e discordâncias quanto ao método utilizado para realizar as baixas contábeis levaram os conselheiros da Petrobras não indicados pelos acionistas controladores a não aprovar os balanços do terceiro trimestre e do ano de 2014. Enquanto Mauro Cunha, representante dos acionistas ordinaristas, e Silvio Sinedino, representante nos trabalhadores, votaram contra a aprovação do balanço, José Monforte, representante dos preferencialistas, se absteve da votação dos resultados da companhia. A empresa divulgou ontem ao mercado os votos em separado dos três conselheiros.
No voto de Monforte, o conselheiro ressalta que a inexistência de uma reunião anterior para apreciação dos números inviabilizou a análise dos resultados "dentro do prazo de tempo oferecido".
"Com a ausência do mínimo de tempo, tornou-se impossível concluir a diligência de revisão das demonstrações financeiras, impossibilitando me posicionar em relação aos documentos apresentados", diz o conselheiro, que além de se abster na votação do balanço, foi contra o pagamento de participação de lucros e resultados (PLR) aos funcionários. Ele ainda considerou "inadequado" o lançamento da perda de 3% sobre os contratos envolvidos na Operação Lava-Jato.
Sinedino, que já havia colocado em seu site na internet, citou a ausência de baixa contábil individual no primeiro "trem" da refinaria Abreu e Lima (conhecida como RNEST) e a utilização de premissas que considerou "equivocadas" nas demonstrações contábeis da Petros, fundo de pensão dos funcionários da petroleira. Sobre o PLR, Sinedino votou pelo pagamento aos funcionários.
Mauro Cunha, por sua vez, também votou contra o pagamento da PLR. Sobre o balanço, ressaltou que a baixa contábil por impairment de R$ 44,6 bilhões feita no balanço de 2014 "não guarda relação com a dimensão da superavaliação" dos ativos da companhia. Ele também questionou a falta de documentos que ajudariam na análise do balanço e ressaltou que não poderia "concordar com essa abordagem".
Cunha citou como exemplo a refinaria de Abreu e Lima, a Rnest, que estaria registrada nos livros contábeis "ao impressionante múltiplo de 27x Ebitda". Segundo ele, o impairment proposto pela companhia leva esse indicador para 22x, "ainda muito superior a qualquer parâmetro aceitável".
O conselheiro acrescentou que houve a adoção de "uma série de premissas que, embora até justificáveis isoladamente (em alguns casos), no seu conjunto apontam numa só direção: a falta de conservadorismo na análise". Segundo ele, a empresa adota uma taxa de alavancagem bastante superior àquela utilizada pelos avaliadores independentes. Cunha diz que usou-se uma taxa de desconto inferior em quase 300 pontos-base em relação à avaliação feita pelos peritos independentes.
"O que se vê é uma escolha de parâmetros que tem como resultado diminuir os ajustes requeridos às demonstrações financeiras. Considero tais práticas equivocadas", disse Cunha no voto, que ainda questionou a baixa de R$ 6,2 bilhões feita devido à corrupção. Segundo ele, foi "inoportuno" realizar a "baixa de gastos adicionais capitalizados indevidamente".
"Entendo que o "impairment" bem feito teria sido o que esta companhia deveria fazer neste momento para se assegurar que seus ativos estejam adequadamente reportados", frisou Cunha.
(Fonte:Valor Econômico/Rafael Rosas | Do Rio)
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