O Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Ipojuca (PE), vive a maior crise financeira desde sua implantação em 2005. Sem receber o pagamentos pelas encomendas da Sete Brasil, o EAS cortou 30% dos seu quadro de funcionários desde outubro. A situação levou os sócios da empresa - Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e um grupo de empresas japonesas lideradas pela IHI Corporation - a injetarem R$ 50 milhões na companhia no fim de 2014. Outros R$ 100 milhões poderão ainda se confirmar a curto prazo.
Esse novo aporte de capital vai depender de como evoluírem as discussões entre Sete Brasil e EAS. Os sócios do EAS contrataram uma consultoria independente para avaliar como pode ser reestruturada a dívida do estaleiro com fornecedores caso a Sete Brasil não honre os valores devidos.
As contas ainda estão sendo feitas. Em fevereiro, o EAS cancelou de forma unilateral contrato de US$ 5,2 bilhões com a Sete Brasil, para a construção de sete sondas, depois da inadimplência da Sete no contrato. Foi uma forma de o EAS se proteger contra eventuais decisões de fornecedores de entrar com pedidos de falência do estaleiro. Procurada, a Sete não se pronunciou.
O rompimento com a Sete foi o tiro de misericórdia nas finanças de uma empresa que já tinha uma operação deficitária e dependia diretamente do suporte financeiro dos sócios, dois deles hoje envolvidos na Operação Lava-Jato.
No momento, a recuperação judicial do EAS não está sendo considerada, tampouco uma mudança na estrutura societária, apurou o Valor. O capital do estaleiro é dividido em partes iguais pelos sócios brasileiros e japoneses. Os japoneses acompanham a situação, mas ainda não tomaram nenhuma decisão sobre o que fazer.
Embora o balanço de 2014 do estaleiro ainda não tenha sido publicado, há cálculos que indicam que a empresa tem dívidas totais de cerca de R$ 2,5 bilhões. A dívida pode ser separada em R$ 1,8 bilhão relacionada a débito de longo prazo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dinheiro usado na construção do estaleiro, e R$ 500 milhões referentes a um lote de navios encomendados ao EAS pela Transpetro, subsidiária de logística da Petrobras. Há ainda R$ 170 milhões em dívidas de curto prazo.
Uma fonte com conhecimento da situação disse que o EAS tem em caixa não mais que R$ 200 milhões, mas assegurou que a empresa está fazendo esforço para cortar custos e ganhar "sustentabilidade" a longo prazo.
Sem conseguir se comunicar com a direção do EAS, os 4 mil trabalhadores temem mais demissões. Nas últimas semanas, o EAS demitiu mais de 400 pessoas, surpreendendo o sindicato dos trabalhadores, que não esperava por mais cortes no chão de fábrica, apenas mudanças nos quadros gerenciais da companhia."Foi isso que tinha sido passado para nós em março. A empresa não está mais se comunicando com os trabalhadores e há uma expectativa de que haja mais cortes grandes", afirma o presidente do SindiMetal-PE, que representa os metalúrgicos no Estado, Henrique Gomes. A área mais afetada, até agora, é de caldeiraria pesada, que chegou a ter 800 funcionários e hoje conta apenas com 150, revela Gomes.
Em março, a empresa chegou a dizer aos funcionários que estava estudando retomar o contrato com a Sete e as encomendas voltariam, segundo Gomes. A retomada do contrato com a Sete é uma hipótese que não pode ser afastada, segundo fonte. Mas, apesar do comunicado aos empregados, o estaleiro continuou a desligar trabalhadores. Sem conseguir informações diretamente com o EAS, o sindicato dos trabalhadores procurou a Transpetro, que possui um contrato de R$ 7 bilhões para a construção de 22 petroleiros com estaleiro. "A informação que tivemos foi de que o grosso das demissões teria chegado ao fim e que só poderiam haver corte pontuais a partir de agora. Mas como o estaleiro não fala, a gente não consegue ter nenhuma segurança", diz.
O EAS afirmou que "neste momento, prioriza a busca de uma solução para as dificuldades que atravessa" e que "está avaliando algumas opções que possam ser soluções alinhadas com sua estratégia de longo prazo". A empresa não quis responder questionamento do Valor sobre a possibilidade de mais demissões.
Hoje, a mão de obra empregada no EAS é pouco mais de um terço do que era em 2011, quando chegou a ter 11 mil funcionários. "O EAS vive uma realidade diferente de 2011. Na época, o alto contingente de funcionários foi uma solução momentânea às demandas que tínhamos, de diversas embarcações. Atualmente, vivemos outro momento e, com isso, torna-se necessária uma adequação à situação econômica atual pela qual o país passa", disse o EAS.
Fonte:Valor Econômico/Francisco Góes e Marina Falcão | Do Rio e Recife
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