A CMA CGM anunciou que seus serviços FAL1, FAL3 e MEX, que conectam a Ásia à Europa voltarão a ser feitos contornando o Cabo da Boa Esperança, no Sul da África. Com isso, a empresa volta a suspender as viagens pelo Mar Vermellho e pelo Canal de Suez, que haviam sido retomadas no fim de 2025 após dois anos, alegando que o contexto internacional é complexo e incerto. As rotas eram desviadas desde 2023, quando barcos mercantes foram atacados por milicianos do Iêmem na região de Suez.
Destine Ozuygur, analista sênior de mercado da Xeneta, plataforma norueguesa de inteligência de frete marítimo e aéreo, avalia que a decisão terá impacto na confiança dos exportadores em relação à empresa. Ele alegou que os clientes querem previsibilidade nas cadeias de suprimentos e que, se as transportadoras decidem retornar ao Mar Vermelho e depois voltam atrás, mesmo por razões de segurança, correm o risco de minar a certeza de pontualidade e a confiança de parceiros.
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Segundo dados mais recentes da Xeneta, o tempo de viagem no serviço FAL1, da China e de Singapura para seis portos europeus, caiu de 105 para 98 dias quando os navios voltaram a passar pelo Canal de Suez. “E se um embarcador pagasse uma taxa de frete mais alta pelo serviço FAL1 ou MEX devido aos tempos de trânsito mais rápidos pelo Canal de Suez, apenas para descobrir que as remessas foram adiadas em uma semana?”, disse Ozuygur.
Ele enxerga uma ironia no fato de a CMA CGM, considerada a mais proativa na volta ao Mar Vermelho, voltar atrás apenas alguns dias depois de a Maersk, geralmente mais avessa ao risco, anunciar que seu serviço MECL voltaria a passar pelo Canal de Suez. “Isso exemplifica a imprevisibilidade com a qual os embarcadores precisam lidar.”
Ozuygur alerta que essa imprevisibilidade pode se espalhar por diversos serviços e empresas de navegação, incluindo o serviço Indamex da CMA CGM, que ainda está programado pelo Canal de Suez nos trechos de ida e volta. Os dados da Xeneta mostram que o tempo de trânsito do Porto Qasim, em Karachi, para Nova York, na rota Indamex, caiu em janeiro de 40 para 36 dias após a volta ao Canal.
Ele explicou que ainda não houve anúncio da CMA CGM sobre o serviço Indamex, mas previu que os embarcadores estarão atentos à decisão sobre os serviços FAL e MEX e temem que os contêineres cheguem mais tarde do que o planejado. “Os embarcadores devem planejar um tempo de trânsito de 40 ou 36 dias? Qual o impacto disso nas taxas de armazenagem, detenção e sobrestadia? Multiplique essa incerteza por todos os serviços e transportadoras, e o risco de interrupções generalizadas fica evidente”.
Para o analista da Xeneta, a imprevisibilidade é prejudicial para as cadeias de suprimentos porque os embarcadores querem certeza sobre quando os contêineres chegarão ao porto, mesmo que isso signifique tempos de trânsito mais longos ao redor do Cabo da Boa Esperança. “Ironicamente, a decisão da CMA CGM de jogar pelo seguro e retomar os serviços via Cabo da Boa Esperança pode levar os embarcadores a percebê-la como a opção mais arriscada em comparação com seus concorrentes.”

















