A consutoria especilizada em mercado de energia Wood Mackenzie previu no domingo (2) que o preço internacional do barril do petróleo pode ultrapassar em breve 100 dólares por causa do fechamento do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã como retaliação a ataques americanos e israelenses ao país. De acordo com a empresa, o bloqueio da navegação pela região ameaça interromper 15% do fornecimento global de petróleo e 20% do fornecimento global de GNL. De acordo com a Wood Mackenzie, com o fechamento do Estreito, não apenas as exportações por ele serão interrompidas, mas os volumes adicionais da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opeo), geralmente fator de equilíbrio do mercado global de petróleo, ficarão inacessíveis.
“A questão crucial é quando os navios retomarão o fluxo de exportação", disse Alan Gelder, vice-presidente sênior de Refino, Produtos Químicos e Mercados de Petróleo da consultoria. Segundo ele, não há dúvida que as taxas de frete de navios-tanque e os seguros das embarcações aumentarão drasticamente, mas esses custos representariam apenas pequena parte do impacto no preço do petróleo associado à redução no fluxo, caso a interrupção dure mais do que alguns dias.
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“Dada a incerteza em torno dos acontecimentos, é plausível que leve algumas semanas, mesmo no cenário mais otimista, em que o governo iraniano opte por cooperar com os Estados Unidos”, disse Gelder, para quem a comparação com problema semelhante recente seria com os dos primeiros dias do conflito entre Rússia e Ucrânia, quando o temor da perda do fornecimento russo elevou o preço do petróleo para mais de 125 dólares por barril. O grupo de oito países da Opep, Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã, responsáveis por cortes de produção para segurar preços, concordou em 1º de março em supender o corte de 1,65 milhão de barris por dia previsto para abril.
Eles aumentarão a produção em 206.000 barris por dia no próximo mês e se reunirão em 5 de abril para avaliar a situação. Mas, para Gelder, há risco de que essa decisão se torne irrelevante se o fluxo pelo Estreito de Ormuz não for retomado em breve. "A decisão da Opep não é surpresa, devido à incerteza em torno das tensões entre os Estados Unidos e Irã e ao fato de o mercado de petróleo bruto não sancionado estar restrito", disse o especialista. Embora existam rotas de abastecimento alternativas para os produtores do Oriente Médio, incluindo o gasoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita até o Mar Vermelho e volumes adicionais do Iraque via Mediterrâneo, nenhuma alternativa pode compensar totalmente a perda das exportações que transitam pelo Estreito de Ormuz.
Liberações estratégicas de estoques por países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) poderiam proporcionar algum alívio, mas os membros da entidade representam menos da metade da demanda global de petróleo. A interrupção no fluxo de GNL (Gás Natural Liquefeito) pelo Estreito de Ormuz seria igualmente prejudicial para os mercados globais, de acordo com a Wood Mackenzie. Cerca de 81 milhões de toneladas (110 bilhões de metros cúbicos) de GNL transitaram pelo Estreito em 2025, principalmente oriundo do Catar, representando quase 20% do fornecimento global de GNL.
De acordo com a avaliação de Massimo Di Odoardo, vice-presidente de Pesquisa de Gás e GNL da Wood Mackenzie, interrupções no fluxo de GNL reacenderiam a competição entre a Ásia e a Europa pelas cargas disponíveis, especialmente em momento em que os níveis de armazenamento europeus estão abaixo da média sazonal e cerca de 10% menores do que no mesmo período do ano passado, após forte onda de frio em janeiro. "Com aproximadamente 1,5 milhão de toneladas (2,2 bilhões de metros cúbicos) de exportações de GNL em risco a cada semana de interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz, os mercados asiático e europeu precisariam recorrer mais intensamente aos estoques existentes, aumentando a necessidade de reabastecimento durante o verão. Isso apertaria as condições de mercado muito além da eventual retomada do comércio pelo Estreito", explicou.
O fechamento preventivo dos campos de gás Leviatã e Karish, em Israel, que forneceram mais de 10 bilhões de metros cúbicos (bcm) ao Egito no ano passado, pode aumentar ainda mais a pressão, já que o Egito provavelmente aumentaria as importações de GNL para compensar os volumes perdidos. Possíveis interrupções nas exportações de gás do Irã para a Turquia, que representaram mais de 7 bcm em 2025, podem agravar a pressão sobre o fornecimento. Uma paralisação do fluxo de GNL pelo Estreito de Ormuz seria comparável, em escala, à redução do fornecimento de gás russo para a Europa, que fez os preços dispararem para quase 100 dólares/mmbtu no pico e atingirem a média de 40 dólares/mmbtu em 2022, segundo Di Odoardo. "Desta vez, porém, é improvável que a reação seja tão extrema", avaliou ele. Ao contrário da interrupção prolongada do fluxo de gás nos gasodutos russos, um bloqueio no Estreito poderia ser visto como temporário, moderando o potencial de alta. Ainda assim, a expectativa é de salto nos preços. E qualquer sinal de que as interrupções podem se prolongar impulsionaria ainda mais a valorização.


















