A cabotagem, transporte marítimo de cargas entre portos de uma mesma costa, vem ganhando espaço no Brasil como alternativa logística mais eficiente e sustentável. Em 2025, foram movimentadas mais de 303 milhões de toneladas por meio desse modal, um crescimento de 3,4% em relação ao ano anterior, segundo dados da Antaq. No conjunto do setor aquaviário, o Brasil movimentou 1,4 bilhão de toneladas de cargas em 2025, demonstrando a importância do transporte marítimo para a competitividade da economia, ampliando a previsibilidade logística, reduzindo custos e contribuindo para metas de descarbonização — tema cada vez mais presente nas decisões empresariais.
Apesar dessa importância econômica, o setor marítimo ainda é majoritariamente masculino. Dados da Organização Marítima Internacional (IMO) indicam que as mulheres representam cerca de 2% da força de trabalho marítima embarcada no mundo. Mesmo em posições corporativas e executivas, a presença feminina permanece limitada quando comparada a outros segmentos da economia.
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A discussão sobre diversidade no setor, portanto, não é apenas social — é uma questão de competitividade e desempenho. Ambientes complexos, como o marítimo e o logístico, exigem múltiplas perspectivas para lidar com variáveis geopolíticas, regulatórias, cambiais e operacionais. Estudo da McKinsey aponta que empresas com maior diversidade de gênero em cargos executivos têm até 25% mais probabilidade de superar a média de rentabilidade de seus setores. Em um mercado que depende de decisões de longo prazo e alto investimento, ampliar a diversidade significa fortalecer a qualidade das escolhas.
Outro desafio estrutural é o desconhecimento sobre o próprio setor. A navegação não faz parte do cotidiano da maioria das pessoas, diferentemente de bens de consumo ou serviços financeiros. Isso impacta diretamente a atração de talentos: especialmente jovens mulheres, que muitas vezes não enxergam o setor como possibilidade de carreira. Tornar a atividade mais visível, explicar sua dinâmica e destacar suas oportunidades é parte fundamental dessa mudança.
A navegação é um ambiente altamente dinâmico. Nenhum dia é igual ao outro. Planejamento rigoroso, atenção a detalhes, leitura de cenário e capacidade analítica são competências essenciais para garantir eficiência e competitividade. Essas habilidades são cada vez mais valorizadas nas lideranças contemporâneas e estão diretamente ligadas à capacidade de tomar decisões consistentes em cenários complexos.
No nível da alta liderança, essa transformação é ainda mais evidente. O papel dos executivos deixou de ser restrito às suas áreas técnicas de origem. Estudos da Deloitte sobre o futuro da liderança mostram que o C-level precisa atuar de forma integrada ao negócio, com visão ampla e proximidade com a operação. Em setores como o marítimo, isso significa estar no porto, compreender a dinâmica de um navio, acompanhar a rotina operacional e manter diálogo constante com clientes e parceiros. A alta liderança precisa estar conectada à realidade da operação para tomar decisões sólidas e sustentáveis no longo prazo.
Além disso, a agenda de sustentabilidade impõe novas responsabilidades ao setor. A Organização Marítima Internacional estabeleceu metas de redução de emissões com o objetivo de alcançar neutralidade líquida por volta de 2050, exigindo investimentos consistentes, inovação tecnológica e disciplina financeira. A integração entre eficiência operacional, governança e visão de longo prazo será determinante para o sucesso dessa transição.
Ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é parte dessa evolução. Quando mais mulheres ocupam fóruns de liderança, amplia-se o repertório de ideias, fortalece-se a governança e constrói-se um ambiente mais preparado para enfrentar cenários complexos. Diversidade não é apenas representatividade — é diferencial competitivo.
O futuro da cabotagem brasileira será definido por infraestrutura, regulação, inovação e capital humano. Garantir que esse capital humano seja diverso é assegurar que o setor esteja preparado para crescer de forma sustentável, resiliente e alinhada às transformações globais. Não se trata apenas de incluir mulheres, mas de reconhecer que o setor cresce mais quando elas fazem parte das decisões.
Maria Gimena Scott é Chief Financial Officer (CFO) da Norcoast. Com quase duas décadas de experiência em finanças corporativas nos setores marítimo e de logística, a executiva atuou em companhias globais como Hapag-Lloyd e ocupou posições de liderança na CSAV e na CPA Ferrere, com foco em planejamento estratégico, Corporate Finance e inteligência de negócios.















