A Vale está tentando vender os ativos de carvão que possui na Austrália, segundo fontes que acompanham o mercado internacional da commodity. O negócio, porém, não é fácil no atual momento do mercado em que os preços do carvão metalúrgico, usado por siderúrgicas, vêm em queda livre nos últimos anos. Especialistas do setor dizem que a empresa poderá buscar vender os ativos em separado e, nos casos em que não tiver sucesso, tentar fechar negociação em "bloco". No mercado, há informações de que o Barclays foi contratado como consultor pela Vale para auxiliar a empresa na transação.
A Vale tem três minas de carvão na Austrália, das quais duas, Integra Coal e Isaac Plains, estão fechadas desde 2014 e outra, Carborough Downs, continua em operação. Juntas as três minas produziram 3,3 milhões de toneladas de carvão metalúrgico no ano passado, 1,2 milhão a menos do que as 4,5 milhões de toneladas de 2013. Além dessas minas, compradas da AMCI em 2007, a Vale tem projetos novos de carvão a serem desenvolvidos na Austrália. Um deles, chamado de Eagle Downs, está andando, mas em um ritmo lento, segundo analistas do setor. Em Eagle Downs, a Vale tem a chinesa Baosteel como sócia. Há ainda o projeto Belvedere, mais difícil de ser desenvolvido no atual cenário de preços, dizem especialistas da indústria.
Uma dificuldade do mercado é calcular o valor de venda dos ativos de carvão da Vale na Austrália. A conta é complexa pois precisa considerar os valores dos ativos individualmente. Como algumas das minas estão fechadas, sem gerar receita, em tese, elas poderiam ter um valor de venda negativo. Em Integra Coal, a Vale tem 64,8% com a parte restante em mãos da Nippon Steel, JFE Group, Posco, Toyota Tsusho e Chubu Electric Power. Já em Isaac Plains a Vale tem 50% e a outra metade é da Sumitomo. Em Carborough Downs, a Vale tem 90% e o restante é de JFE e Posco.
Analistas dizem que mineradores interessados nos ativos da Vale podem olhar para "sinergias" a serem aproveitadas, o que os levaria a acreditar que os ativos têm um valor a ser recuperado no futuro. Mas o que torna o negócio difícil neste momento são as condições de mercado. Hoje, o preço do carvão metalúrgico está na faixa de US$ 87 por tonelada FOB (no porto na Austrália). É um valor muito abaixo do patamar de US$ 150 por tonelada que o carvão metalúrgico atingiu nos dois últimos anos. Há estimativas de que em 2015 os preços poderão cair ainda mais, chegar a US$ 80 por tonelada FOB Austrália. Nas projeções de analistas, os preços poderiam se recuperar chegando a US$ 120 por tonelada daqui a três anos.
"O humor do mercado não é de compra", disse um analista. Na hora de fechar uma aquisição, é preciso considerar fatores como o fluxo de caixa a ser gerado pelo ativo nos primeiros anos e investimentos que precisam ser feitos. Segundo analistas, existe o agravante que os ativos de carvão da Vale na Austrália não se encontram nos primeiros "quartis" da indústria, algo importante na análise da competitividade de uma mina, ainda mais em momento de depressão nos preços.
Um analista disse que a venda das minas de carvão da Vale na Austrália vem sendo considerada pelo mercado uma vez que trata-se de ativos de pequeno porte se comparados, por exemplo, com o projeto integrado por mina, ferrovia e porto que a mineradora brasileira desenvolve em Moçambique, na África Subsariana. Na província de Tete, noroeste de Moçambique, a Vale produziu 3,1 milhões de toneladas de carvão metalúrgico no ano passado. Mas Tete, nos planos da Vale, irá expandir sua capacidade até chegar a 22 milhões de toneladas por ano, entre carvão metalúrgico e térmico. O carvão de Moçambique é um projeto prioritário para a Vale, diferente da Austrália, disse outro analista.
Para a Vale, a venda na Austrália tornou-se importante, segundo os analistas, uma vez que os ativos australianos geram custos como manutenção das minas paradas e contratos firmes de transporte com ferrovias. Procurada, a Vale não quis se pronunciar.
Fonte: Valor Econômico/Francisco Góes | Do Rio
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