Na abertura da 20ª edição do evento, representantes do setor naval e marítimo falaram da retomada das encomendas e das novas frentes que estão no radar
A cerimônia de abertura da 20ª edição da Navalshore, Feira e Conferência da Indústria Marítima, nesta terça-feira (18), trouxe visões de diferentes segmentos sobre a retomada da construção naval e sobre novas frentes, que já começam a surgir no radar e que representam oportunidades de investimento no setor. O evento acontece de 19 a 20 de agosto no ExpoRio, no Rio de Janeiro, e reúne autoridades e principais lideranças da indústria marítima.
PUBLICIDADE
A edição 2026 foi saudada como a mais importante da indústria naval brasileira, cuja história tem acompanhado ao longo de seus ciclos desde 2004. Rosângela Vieira, diretora da Navalshore, destacou que a edição 2026, a maior desde sua criação, mostra a confiança do mercado no futuro da indústria naval brasileira. “Esse futuro já começa a se materializar. Estamos vivendo um momento de retomada na construção de embarcações, com novos investimentos e projetos de peso. A Transpetro avança na renovação e ampliação de sua frota: nos últimos dois anos contratou 13 novos navios, um investimento de cerca de US$ 705 milhões, que está alavancando fortemente a geração de empregos não só nos estaleiros contratados, mas em toda a cadeia fornecedora de navipeças”, destacou Rosangela Vieira.
Ela observou ainda que no segmento de apoio marítimo, só no último ano, foram contratadas 14 embarcações em projetos que vão movimentar mais de R$ 16 bilhões. E que o Programa Mar Aberto do Sistema Petrobras já contabiliza 82 embarcações contratadas dentro de um plano que prevê 96 embarcações até 2032. O segmento de embarcações fluviais segue em crescimento. Na Região Norte, 70 embarcações foram entregues nos últimos anos, todas com recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM). Em janeiro, a Transpetro encomendou 18 barcaças que estão sendo construídas em Manaus (AM) e 18 empurradores que estão sendo construídos em Navegantes (SC).
Marcos Augusto Almeida, assessor executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) destacou que as 12 empresas brasileiras de navegação (EBNs) operam com embarcações modernas e adequadas ao modal. “Isso faz com que a cabotagem cresça com taxas de 11% a 15% apesar das dificuldades. A cabotagem tem como prioridade continuar desenvolvendo um transporte eficiente e sustentável. Não precisamos de normas para definir o que é sustentável. A cabotagem junto com a multimodalidade realiza entregas porta a porta, como os eletrônicos de Manaus”, salientou.
Outras dificuldades, segundo Almeida, passam pela infraestrutura, pela questão ambiental e pela disponibilidade de tripulação: “Lutamos contra a seca, que é inevitável, mas deveríamos nos preparar com uma infraestrutura para minimizar os efeitos da seca (...). A IMO vai se reunir em breve para discutir os combustíveis alternativos. Tivemos, em Santos, um reabastecimento de etanol. Hoje, o biocombustível e o etanol são desafios a serem enfrentados pelo shipping. E o grande desafio, não só no Brasil, é a falta de pessoal qualificado”, alertou Almeida.
Dino Antunes Batista, vice-presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Apoio Marítimo e do Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Abeam/Syndarma), afirmou que o grande foco das duas entidades é a política pública de defesa da bandeira brasileira. A Lei 9432/1997 e posterior regulação define prioridades para a navegação de bandeira brasileira que também viabiliza a soberania na produção de petróleo executada 90% no mar.
“Isso exige um monitoramento constante da política pública. Percebemos constantemente movimentos de ataques relacionados à prioridade da bandeira brasileira, seja por agentes e interesses externos e infelizmente também por agentes internos. A navegação e a construção naval andam de mãos dadas. No apoio marítimo isso foi fundamental. A frota brasileira hoje é de cerca de 480 embarcações, das quais 80 a 90 são de bandeira estrangeira e uma parte significativa construída aqui, não só os LHs, PSVs mais simples mas embarcações tecnologias e mais complexas como PLSVs. Tudo isso é fruto de uma escolha de política pública”, reiterou.
Ariovaldo Rocha, presidente do Sindicato da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), celebrou a retomada da indústria naval ocorrida em 2025 e 2026, ressaltando a superação do número de emprego recorde de 2014, quando estavam em atividade 82,4 mil trabalhadores. “Em junho (2026) alcançamos 86 mil empregos diretos como resultado das construções em andamento. Até o momento, a Transpetro já contratou 49 embarcações, sendo cinco gaseiros, quatro petroleiros, 18 barcaças e 18 empurradores fluviais. A Petrobras também anunciou a contratação de um parque considerável de módulos e equipamentos e da estrutura marítima para a produção nas Bacias de Santos e de Campos e, futuramente, na Margem Equatorial. Há ainda a construção de 22 unidades de embarcações de apoio marítimo”, elencou.
Rocha acrescentou que o setor de reparo naval continua com muitas obras de modernização e conversão de embarcações, um segmento resiliente que sobreviveu a todas as crises. “Também iniciamos as atividades de desmantelamento e reciclagem de embarcações e de estruturas marítimas. O FPSO P-32 já foi reciclado e agora está ocorrendo o desmantelamento do P-33 no estaleiro Ecovix”, lembrou o presidente do Sinaval.
Marcius Ferrari, vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro no Leste Fluminense e presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado do Rio de Janeiro, lembrou que o estado foi o berço histórico da construção naval, com o maior parque. “Ainda temos uma importante agenda. Precisamos de condições adequadas para de fato realizarmos as oportunidades. A carteira de encomendas contempla mais de 20 plataformas já anunciadas para entrar em operação. É importante destacar a inclusão da cláusula contratual de conteúdo local, reforçando o compromisso com a indústria nacional”, ressaltou Ferrari.
O vice-almirante (VA) André Macedo, diretor de portos e costas da Marinha do Brasil, ressaltou que a relevância da Navalshore ultrapassa a dimensão comercial num cenário de profundas transformações da indústria marítima marcada pela transição energética, descarbonização das frotas e incorporação de novas tecnologias. “Eventos como este contribuem para transformar conhecimento e inovação em soluções concretas para o setor. A realização de encontros corporativos favorece a conexão entre empresas e a realização de negócios entre fornecedores nacionais e internacionais, fortalecendo a indústria brasileira e a capacidade de inserção do país nas cadeias globais relacionadas às atividades marítimas”, destacou Macedo.
Ele acrescentou que a autoridade marítima quer caminhar em sintonia com a evolução tecnológica e as demandas da sociedade. “A segurança da navegação, a salvaguarda da vida humana no mar, a proteção do ambiente marinho e adequada regulação são pilares indispensáveis”, afirmou o diretor de portos e costas.
Fechando a cerimônia de abertura, o VA Wilson de Lima Filho, diretor da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), destacou que a autarquia tem desempenhado papel fundamental para criar um ambiente seguro para investimentos públicos e privados. “Atualizamos a regulação para embarcações de apoio marítimo. A implementação do Plano Geral de Outorgas (PGO) das hidrovias é uma das nossas grandes metas. Avançamos a passos largos numa agenda histórica de leilões e arrendamentos, garantindo bilhões de reais em investimentos para ampliação da capacidade portuária”, elencou o diretor da agência reguladora.
A edição de 2026 é a maior e mais representativa com 170 estandes, ante 146 da edição anterior, um crescimento de 14% com mais de 700 marcas nacionais e internacionais ampliando em 7% a presença registrada em 2025. A área de exposição também cresceu com 4.194 metros quadrados, 12,5% superior aos 3.724 metros quadrados do ano passado. Entre os expositores, 36 são internacionais, reforçando a projeção da Navalshore como ambiente de conexão do mercado brasileiro com a indústria global.
O conhecimento também é destaque. A conferência oficial conta com 37 palestras enquanto o tradicional Ciclo de Palestras tem outras 23 apresentações, formando uma programação dedicada aos desafios, oportunidades, tecnologias e perspectivas que movimentam o setor. A Navalshore também amplia o potencial de realização de negócios com uma rede de oportunidades para fornecedores organizada pelos Sistema Sesi-Firjan que promove encontros agendados entre fornecedores e empresas âncoras com a participação da Marinha do Brasil, Transpetro e dos estaleiros Mauá e Hanwha Ocean.
Outro destaque são as rodadas de investimento Invest Brasil Shipping Building Offshore organizadas pela Associação Brasileiras das Empresas da Economia do Mar (Abeemar) e Apex Brasil, conectando investidores internacionais a empresas brasileiras com novas oportunidades de negócios e investimentos para a cadeia naval e offshore.
A diretora da Navalshore ressaltou que é um ciclo que traz novas oportunidades mas também desafios e que o setor precisa de mais competitividade, tecnologia, qualificação, segurança jurídica e uma cadeia de fornecedores cada vez mais preparada. “A Navalshore é um espaço para que isso aconteça com networking e, esperamos, muitos negócios. A conferência reúne temas relevantes como regulação, competitividade, Reforma Tributária e os desafios para um novo ciclo da indústria Marítima”, concluiu Rosângela Vieira.















