Relatório divulgado pela DNV, especializada em certificação e gerenciamento de riscos, inclusive na área de construção naval, indica que a pressão sobre o transporte marítima por descarbonização e redução de emissão de gases do efeito estufa vai estimular armadores a avaliar o uso de propulsores nucleares como alternativa viável aos motores convencionais. Segundo o estudo, o uso de energia nuclear está despertando à medida que a indústria busca soluções escaláveis e com zero emissões.
Segundo o relatório, além de não produzir emissões, a propulsão nuclear oferece vantagens, como custos de energia estáveis e previsíveis, maior flexibilidade operacional, incluindo a viabilidade econômica para navegar em velocidades mais altas, e menor dependência da infraestrutura tradicional de abastecimento. O estudo descreve o panorama atual da propulsão nuclear marítima e enfatiza a necessidade de inovação tecnológica, clareza regulatória e pragmatismo econômico para que o setor se torne viável no futuro.
PUBLICIDADE
O estudo avalia que a crescente necessidade de descarbonizar o transporte marítimo, combinada com as dificuldades associadas a isso, como o fornecimento limitado de combustíveis com baixa emissão de gases de efeito estufa, está levando muitos do setor a reavaliarem a propulsão nuclear como possível solução para o problema. O relatório técnico descreve conceitos de reatores que estão sendo desenvolvidos especificamente para uso marítimo.
Ole Christen Reistad, pesquisador principal sênior da DNV e principal autor do relatório técnico, explicou que todos os reatores devem levar em consideração fatores exclusivos do transporte marítimo, como mobilidade, exposição a condições adversas e perfil operacional. Além disso, devem, segundo ele, considerar fatores como custo, espaço, confiabilidade, disponibilidade de energia e, principalmente, segurança.
Ele disse que reatores menores e padronizados, com segurança passiva e necessidade mínima de tripulação, podem beneficiar a marinha mercante, enquanto sistemas de baixa pressão e reatores de Geração IV ou de tubos de calor podem oferecer alternativas mais seguras e simples. No documento técnico, é ressaltado que os reatores marítimos devem ser compactos e projetados para reabastecimento pouco frequente, alinhado com atividades de manutenção, como docagens.
Ainda segundo o estudo, questões relacionadas à inspeção em alto-mar e à segurança podem ser mitigadas com monitoramento remoto e recursos avançados de comunicação. O relatório informa que projetos nesse sentido já estão em andamento em diferentes países, com abordagens distintas em relação a combustível, a resfriamento e a segurança.
Além dos reatores, o documento da DNV identifica a necessidade de um ciclo de combustível marítimo dedicado e economicamente viável, que deve abranger todas as etapas, incluindo qualificação e fabricação do combustível, armazenamento e destinação do produto irradiado. “Qualquer futura indústria comercial de combustível nuclear marítimo deve ser centrada em um ciclo de específico para esse uso, com funções e responsabilidades reconhecidas em toda a cadeia de suprimentos, da produção ao descarte, passando pela integração ao reator e o carregamento”, afirma Reistad.
Segundo ele, o armazenamento e o descarte serão fundamentais para a funcionalidade e a credibilidade da cadeia de suprimentos e para a aceitação pública do ciclo de combustível marítimo. Tendo a segurança e a aceitação pública como elementos centrais para a evolução da indústria nuclear marítima civil, o documento técnico da DNV destaca a importância de ter regulação previsível e internacionalmente aceita.
O estudo aponta que a competitividade da energia nuclear pode ser aprimorada com abordagem modular e padronizada e informa que progresso nesse sentido já está sendo alcançado com a integração de tecnologias de reatores de Geração III+ e IV à crescente preponderância de pequenos reatores modulares. Além disso, explica que os custos dos reatores serão decisivos para que a propulsão nuclear seja opção viável para a frota marítima comercial.
O relatório da DNV apresenta estudo de caso de um navio porta-contêineres de 15.000 TEUs, examinando fatores-chave como custos anuais de leasing e Capex, comparando-os com os de navios convencionais, que mostra que os resultados são promissores, mas dependerão do ritmo de descarbonização em toda a indústria marítima. Por exemplo, em cenário de alta descarbonização, preços mais altos dos propulsores seriam vantajosos diante dos gastos com combustíveis de baixo efeito estufa e possíveis penalidades impostas por uso de combustíveis convencionais.
Eirik Ovrum, gerente de Desenvolvimento de Negócios e coautor do relatório, garante que a adoção de tecnologias menores e mais modulares ajudará a agilizar a construção, simplificar a manutenção, fornecer garantia independente e facilitar a aprovação regulatória. “Esses avanços também podem contribuir para a redução da necessidade de tripulação e para o aumento da eficiência operacional, fortalecendo a viabilidade econômica da propulsão nuclear”, afirma ele.


















