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Transição energética e descarbonização dominaram os debates na Conferência Brazil@Nor-Shipping

Apresentações e debates de alto nível marcaram a 5ª edição da tradicional conferência Brazil@Nor-Shipping. O evento aconteceu em paralelo à feira, que terminou na última sexta-feira, na Noruega. Novos combustíveis, transição energética e descarbonização estiveram no centro das discussões, que contaram com a participação de diversos representantes da Marinha do Brasil, Petrobras, Transpetro, ANP e EPE. Pelo lado norueguês, expoentes da indústria marítima deram sua contribuição para a troca de experiências e análises do cenário atual e do que pode ser esperado para os próximos anos tanto no segmento offshore quanto no de navegação. E um ponto é consenso. Como um dos países com matriz energética mais limpa do mundo, o Brasil tem, sim, importante papel na redução das emissões de gases poluentes mas também pode contribuir com seu know-how em diversas outras áreas. Embora não possam ser considerados solução no longo prazo, os biocombustíveis dão ao Brasil algum fôlego até que possa desenvolver outras opções de combustíveis economicamente mais viáveis. Parceria foi o tema da Nor-Shipping 2023 e também na conferência brasileira a necessidade e importância da colaboração entre os diversos atores foi ressaltada por diversas vezes.

Na abertura da conferência, o anfitrião, Felipe Meira, presidente da Associação Brasileira do Armadores Noruegueses (Abran), ressaltou como será fundamental trabalhar em colaboração para transpor as barreiras frente ao desafio da descarbonização. "Brasil e Noruega tem longa tradição de parceria nos assuntos relacionados ao mar e com estes debates esperamos contribuir para ampliar ainda mais essa parceria".

Com um número recorde de participantes, cerca de 90 pessoas, a conferência brasileira reuniu empresários e executivos interessados em conhecer mais do está sendo feito e o que está por vir no país que é considerado uma das potências do segmento energético mundial.

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O CEO da Norwegian Shipowners Association (NSA), Harald Solberg, lembrou como as mudanças no cenário energético mundial devido à guerra entre Rússia e Ucrânia, trouxeram novos desafios à navegação mundial. Segundo ele, os armadores noruegueses estão trabalhando duro e focados em reduzir as emissões de carbono para cumprir a meta de zerar as emissões até 2050. Solberg disse que o Brasil tem papel essencial para que as regulamentações da IMO visando a descarbonização sejam cumpridas. "O prazo é curto e o tempo para agir é agora", afirmou.

Já o ministro da Pesca e Políticas Oceânicas da Noruega, Bjønar Selnes Skjæran, enfatizou um outro aspecto que não costuma ser muito citado mas é de extrema importância em diversos países: A oportunidade que a transição energética poderá trazer na geração de empregos. Não somente em termos quantitativos mas também na geração de valor em muitos deles. "A transição energética vai criar muitas novas oportunidades em tecnologias verdes", pontuou, lembrando que a pandemia de Covid 19 atrasou a implementação das regras da IMO e é preciso um esforço geral para agilizar os processos. Ele lembrou ainda que Petrobras e Equinor vão atuar em cooperação em projeto de energia eólica no Brasil e com seu histórico de parceria é esperado que seja mais um bem sucedido.

No painel Energia, Navegação e Transição Energética, o CEO da empresa de consultoria Rystad Energy, Jarand Rystad, ressaltou que o Brasil tem uma das fontes de recursos renováveis mais baratas e limpas. E ainda com tendência dos custos de produção seguirem em queda. Sobre o hidrogênio verde, embora a maioria dos projetos estejam na Europa, a participação do Brasil está crescendo e ele acredita que o país terá um papel muito relevante nos próximos anos. Destacando a pujança da frota marítima brasileira, ele destacou que atualmente o país tem 250 embarcações de apoio offshore, 150 rebocadores, 50 navios-tanque e 25 graneleiros.

Segundo ele, o ápice da produção de petróleo no país deve acontecer em torno de 2030, decaindo a partir da próxima década. Como o petróleo do pré-sal tem menos carbono, o aumento da produção nesses campos mais profundos acaba favorecendo a redução da pegada de carbono no país.

Para Rystad, outro ponto a ser destacado é que aos poucos e cada vez de forma mais intensa o consumo de energia primária no Brasil está migrando dos combustíveis fósseis para as renováveis, como biomassa, solar e eólica.

Ainda segundo os dados apresentados pelo CEO, os estados com maior capacidade eólica (considerando os projetos em processo de licenciamento ambiental) são Rio Grande do Sul, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Piauí, ES, SC e MA. "O potencial eólico brasileiro tem atraído não só desenvolvedores locais para também globais, de olho na descarbonização."

Em sua apresentação, o chefe do Estado-Maior da Armada, alte. José Augusto Vieira da Cunha de Menezes, falou sobre as perspectivas da Autoridade Marítima Brasileira frente transição energética. Em tom otimista, ele lembrou que o Brasil é o segundo maior produtor de biocombustíveis no mundo e ainda dispõe de extensas áreas para o crescimento da produção de forma sustentável. E ressaltou que não há conflito com a produção de alimentos : as lavouras ocupam 8% do território nacional. "A expectativa é de que em 2030 os biocombustíveis representem 18% da matriz energética brasileira", comemorou.

O alte. Cunha lembrou ainda que o Brasil busca outras fontes de energia limpa e destacou o projeto desenvolvido no porto do Pecém, a 1ª planta de hidrogênio verde do país.
Em sua apresentação, o diretor da ANP, Daniel Vieira, lembrou que o Brasil está cada vez mais ocupando uma posição de liderança no segmento de E&P com 14.9 bilhões de barris em reservas de óleo provadas e 406 bilhões de m3 de reservas de gás em 2022 Em 2022 foram exportados 1.34 milhões de barris de óleo cru. "A previsão é de que de 2023 a 2027 sejam investidos US$ 90 bilhões em E&P. E de 2018 a 2022 foram investidos US$ 2,5 bilhões em P&I e em transição energética foi bem pouco, só 5%.

Ainda segundo ele, o segmento de gás no Brasil tem o desafio de aumentar a monetização da atividade, que ainda é baixa.

O diretor da ANP afirmou que atualmente o Brasil abriga a maior parte dos FPSOs em desenvolvimento e até 2027 outras 20 unidades entrarão em operação no país. Desse total somente quatro são de outras operadoras que não a Petrobras.

O diretor da Antaq, alte. Wilson de Lima Filho, disse não haver dúvidas de que o Brasil é verde. E ressaltou que no longo prazo alguns combustíveis como amônia e metanol terão papel relevante mas no curto prazo o Brasil tem biocombustíveis e gás natural. "Biocombustíveis não são solução de longo prazo", pontuou, lembrando que atualmente o Brasil tem 10 projetos de hidrogênio verde e destacou os portos brasileiros que tem ganhado destaque na área: os portos de Pecém (CE), Açu (RJ) e Rio Grande (RS). O diretor da Antaq destacou ainda que a Neoenergia estuda projetos tanto na área de hidrogênio verde como de energia eólica. Na opinião de Wilson Lima Filho o Brasil não terá um combustível predominante mas várias soluções a serem aplicadas, dependendo de cada rota de navegação.

O analista de Pesquisa Energética da EPE, Bruno Stukart, falou sobre as perspectivas da transição energética no Brasil. Segundo ele, a transição no mundo está lenta e lembrou que no Brasil a produção de biocombustíveis é grande e tem potencial para crescer. E que os biocomobustíveis tem ajudado a descarbonizar o transporte rodoviário brasileiro.
Na opinião do analista da EPE, mesmo com o barateamento das baterias, os carros elétricos são opção distante da maioria da população brasileira e considera que no próximo decênio o etanol e a hibridização deverão ser predominantes, apesar da crescente eletrificação de veículos.

Já no segmento marítimo, o cenário selecionado pelo governo como referencial para a formulação de políticas públicas não prevê a entrada de novos combustíveis para bunkering no Brasil na próxima década, com a exceção do Gás Natural Liquefeito (GNL). A EPE reconhece o potencial da energia eólica offshore no Brasil, porém não projeta sua participação no abastecimento do Sistema Interligado Nacional, por não considerar que ao longo da próxima década a fonte se tornará competitiva o suficiente para ganhar leilões contra fontes de energia como eólica onshore, solar e biomassa. Isso não significa que não será relevante, pelo seu potencial, especialmente para a produção de hidrogênio verde"

Na mesa redonda que se seguiu às apresentações um dos pontos levantados foi como deverá se dar a cooperação entre Brasil e Noruega nos próximos anos. Para o diretor da ANP, o Brasil tem muito o que aprender com o modelo regulatório da Noruega para a exploração de novas fronteiras e também sobre a questão da transição energética. Entre os maiores desafios, ele considera que será manter normas regulatórias de modo a seguir com a importação de diesel. Já Stukart citou que também é preciso foco em incentivar a cabotagem brasileira e reduzir o transporte rodoviário.

Para o diretor da Antaq, com sua experiência a Noruega poderá ajudar na criação da regulação brasileira no segmento de energia eólica. Outra contribuição relevante poderá ser no segmento de embarcações autonômas. "O Brasil tem muito o que aprender com a Noruega nessa área", afirmou o alte. Lima Filho.



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