A sociedade classificadora American Bureau of Shipping (ABS) divulgou um conjunto de análises técnicas em que defende um marco regulatório mais flexível para a implementação das medidas de médio prazo da Organização Marítima Internacional (IMO) voltadas à descarbonização do transporte marítimo. Em carta aberta ao setor, a entidade afirma que o caminho para cumprir o Net Zero Framework da IMO precisa considerar limitações reais de disponibilidade de combustíveis, infraestrutura e tecnologia nos diferentes segmentos da frota mundial.
Segundo a ABS, apenas cerca de 10% da frota global, em tonelagem, está hoje apta a operar com combustíveis alternativos, e outros 6% são classificados como 'prontos para futura adaptação', o que evidencia o estágio inicial da transição. A avaliação aponta que navios de contêineres, balsas e cruzeiros em rotas fixas tendem a ter melhor acesso a cadeias de suprimento de combustíveis alternativos, enquanto graneleiros e petroleiros em tráfego 'tramp' enfrentam mais dificuldades pela natureza variável de suas rotas e pelo acesso limitado a infraestrutura de abastecimento especializada.
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A entidade identifica o GNL como o caminho alternativo mais maduro, com mais de 220 portos oferecendo este combustível e mais de 50 embarcações dedicadas a esse abastecimento, projetando uma frota capaz de operar com GNL da ordem de 112 milhões de toneladas de arqueação bruta até 2030. O metanol é apontado como segunda principal alternativa, mas com gargalo de oferta: a ABS estima produção “realisticamente entregável” de metanol verde entre seis milhões e 13 milhões de toneladas anuais até 2030, o que representaria apenas 13% a 29% da capacidade anunciada e uma fração pequena da demanda de combustível marítimo global.
A ABS alerta ainda que a amônia, frequentemente citada como solução de longo prazo de zero carbono, deve permanecer nichada até o fim da década, com projeção de frota capaz de operar com o produto de apenas 2,5 milhões de toneladas de arqueação bruta em 2030, somada a uma infraestrutura de distribuição ainda limitada. Nesse contexto, a entidade projeta que, em 2030, combustíveis alternativos responderão por cerca de 17% do mix energético do setor, com combustíveis convencionais e misturas com biocombustíveis mantendo participação próxima de 83%.
Diante desse quadro, a ABS argumenta que um marco regulatório baseado predominantemente em obrigações de troca de combustível pode gerar distorções competitivas entre regiões e tipos de navios, além de incentivar o pagamento de penalidades em vez de reduções efetivas de emissões. Como alternativa, a entidade defende a valorização maior de medidas de eficiência energética – como redução de velocidade, otimização de viagem, sistemas de lubrificação a ar e propulsão assistida pelo vento –, estimando um potencial adicional de ganho de 20% a 35% em eficiência na frota existente.
A sociedade também propõe que créditos de carbono vinculados a melhorias de eficiência sejam integrados ao framework de intensidade de gases de efeito estufa da IMO, funcionando como ponte enquanto o suprimento de combustíveis de baixo e zero carbono não alcança escala. O posicionamento destaca elementos positivos em propostas apresentadas por Libéria, Japão, Arábia Saudita e Estados Unidos na IMO e sugere que um pacote equilibrado combine diferentes abordagens, alinhando exigências regulatórias com a realidade de infraestrutura e disponibilidade de combustíveis nas rotas globais.














