O Brasil vem ganhando protagonismo no transporte marítimo global de grãos e fertilizantes, beneficiado pela reorganização dos fluxos comerciais provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, segundo análise recente da consultoria BRS Dry Bulk. A avaliação é de que as mudanças nas rotas e na competitividade dos exportadores tradicionais abriram espaço para maior participação brasileira tanto nas exportações agrícolas quanto na atração de cargas de fertilizantes.
Reconfiguração dos fluxos globais
De acordo com o relatório da BRS Dry Bulk, mais de quatro anos após o início do conflito no Leste Europeu, a Rússia continua a desempenhar papel central nos mercados de granéis agrícolas e de insumos, respondendo por cerca de 7% das exportações mundiais de grãos e 15% das vendas globais de fertilizantes. Apesar de sanções, maiores custos operacionais e riscos de segurança no Mar Negro, os embarques marítimos russos mantiveram-se resilientes, com crescimento próximo de 48% nas exportações de grãos nos primeiros meses de 2026 em relação ao ano anterior, após perdas ligadas a condições climáticas adversas.
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O estudo aponta que restrições e pressões regulatórias impostas pela União Europeia reduziram a competitividade dos carregamentos russos em rotas de longa distância, estimulando a concentração de volumes no Mediterrâneo. Esse redesenho dos fluxos fortaleceu a demanda por navios dos tipos Supramax e Handymax em viagens de menor percurso, ao mesmo tempo em que abriu espaço para outros exportadores ocuparem rotas oceânicas mais longas.
Brasil se consolida nas exportações de grãos
Na avaliação da BRS Dry Bulk, a necessidade de compensar as dificuldades logísticas associadas ao Mar Negro favoreceu fornecedores alternativos, como Estados Unidos e os países da costa leste da América do Sul. Nesse cenário, o Brasil se destaca como um dos principais beneficiados, tendo exportado aproximadamente 155 milhões de toneladas (155 million tons) de grãos em 2025, o que reforça a posição do país nas cadeias globais de suprimento agrícola e na demanda por transporte dry bulk de longa distância.
A expansão desses embarques passa por corredores estratégicos como Santos e Paranaguá, no eixo Sudeste–Sul, e pelos portos do Arco Norte, que vêm ganhando relevância no escoamento de soja e milho em direção à Ásia e à Europa. Esse movimento contribui para sustentar a demanda por tonelagem em rotas oceânicas de maior curso, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão sobre a infraestrutura portuária, acessos terrestres e capacidade de armazenagem vinculados ao agronegócio.
Brasil lidera importações de fertilizantes russos
No segmento de fertilizantes, a BRS Dry Bulk estima que as exportações marítimas russas alcançaram cerca de 9 milhões de toneladas (9 million tons) nos quatro primeiros meses de 2026, mantendo nível semelhante ao observado em igual período do ano anterior. O Brasil aparece como principal destino desses embarques, absorvendo aproximadamente 33% do total, à frente de Índia, com 14%, e Estados Unidos, com 12%, o que confirma a dependência do país em relação a insumos importados para sustentar a produção agrícola.
Esses volumes chegam principalmente por portos especializados na movimentação de granéis sólidos e líquidos voltados ao agronegócio, como Santos, Paranaguá e terminais do Arco Norte, que funcionam como porta de entrada dos insumos que abastecem as principais regiões produtoras. A consultoria avalia que as exportações de fertilizantes da Rússia tendem a ser favorecidas pelas recentes disrupções no Oriente Médio, que vêm alterando cadeias de suprimento e estimulando importadores a diversificar origens.
Implicações para a logística brasileira
Ainda de acordo com a BRS Dry Bulk, os fluxos comerciais em direção à costa leste da América do Sul se fortaleceram de forma significativa em 2026, impulsionados pela combinação entre crescimento das exportações de grãos e aumento da demanda por fertilizantes. Essa dinâmica contribui para sustentar os níveis de frete nos segmentos Handysize, Supramax e Ultramax, ao mesmo tempo em que exige maior capacidade operacional dos portos brasileiros, tanto em terminais focados no Arco Norte quanto nos complexos consolidados do Sudeste e do Sul.
A análise conclui que, mesmo com os riscos persistentes no Mar Negro, a Rússia deve seguir como fornecedor importante de grãos e fertilizantes, enquanto a América Latina, com o Brasil em posição de destaque, tende a consolidar seu papel como grande exportadora agrícola e destino estratégico para fertilizantes russos. Para o sistema portuário brasileiro, o cenário representa tanto uma oportunidade de ampliar movimentação de granéis quanto um desafio em termos de investimentos em infraestrutura, planejamento logístico e ganhos de eficiência nas operações de longo curso.














