Os portos nunca tiveram tantos dados disponíveis. Os sistemas de gestão aplicados, sensores, visão computacional, dashboards e plataformas analíticas transformaram a operação portuária em um ambiente intensivo em informação. Paradoxalmente, essa abundância de números não tem se traduzido, na mesma proporção, em escolhas mais eficientes.
Na prática, boa parte das decisões críticas, como a alocação dos berços às próximas atracações, a definição de janelas operacionais ou o uso dos recursos disponíveis, ainda é tomada com base em planilhas, regras fixas e/ou ajustes manuais. O resultado é um sistema que funciona, mas frequentemente fica distante de seu potencial ótimo e, assim, isto cria um contrassenso na logística portuária: há uma alta disponibilidade de dados convivendo com uma baixa sofisticação decisória, cenário que já foi e ainda é observado em diversos estudos sobre operações portuárias e logística integrada (NOTTEBOOM; RODRIGUE, 2005; UNCTAD, 2023).
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A planilha eletrônica consolidou-se como sendo uma ferramenta universal na logística. Sua flexibilidade, acessibilidade e familiaridade a tornaram indispensável no planejamento operacional. Em muitos locais, ela é o verdadeiro “centro nervoso”. No entanto, sua lógica de funcionamento impõe limitações importantes quando é aplicada em sistemas complexos pois, opera bem com relações diretas, mas enfrenta dificuldades quando lida com múltiplas interdependências simultâneas. Na prática, as determinações são baseadas em:
• regras simples de priorização;
• ajustes manuais iterativos;
• análise limitada de cenários alternativos.
Os sistemas portuários, por sua natureza, envolvem problemas clássicos de alocação de recursos e sequenciamento, amplamente estudados na literatura técnica (BIERWIRTH; MEISEL, 2010; CARLO; VIS; ROODBERGEN, 2015).
A planilha resolve o que está visível na superfície, mas grande parte do problema está justamente onde não se vê...quando as opções são determinadas com base em regras simplificadas, o sistema tende a convergir para soluções viáveis, porém, não ótimas.
As perdas associadas a esse tipo de abordagem não são, em grande parte, percebidas no curto prazo, mas em um futuro próximo, observa-se:
• aumento do tempo de espera;
• subutilização de recursos;
• resoluções localmente ótimas, mas globalmente ineficientes;
• maior variabilidade operacional.
A literatura, por exemplo, aponta que os problemas de alocação de berços possuem forte impacto sobre o desempenho global dos portos e terminais, influenciando diretamente os tempos de espera e a utilização de infraestrutura (BIERWIRTH; MEISEL, 2010).
Além disso, a ausência de coordenação sistêmica tende a amplificar os gargalos logísticos, um fenômeno recorrente em cadeias de transporte mais complexas (NOTTEBOOM; RODRIGUE, 2005), ou seja: organizar a fila não significa otimizar o sistema.
Diante desse cenário, surge uma evolução natural baseada no uso de algoritmos para apoiar as decisões operacionais.
Os modelos de otimização, simulação e análise preditiva permitem avaliar simultaneamente múltiplas alternativas, considerando as restrições operacionais e os objetivos definidos. Esses métodos são amplamente aplicados em problemas de alocação de berços e sequenciamento de operações portuárias (BIERWIRTH; MEISEL, 2010).
Na prática, enquanto uma abordagem manual testa algumas alternativas, os algoritmos testam milhares e selecionam as mais eficientes.
É importante destacar que essa abordagem não substitui o operador humano. Ao contrário, amplia sua capacidade decisória, fornecendo uma base estruturada para escolhas mais consistentes (Pinedo, 2016).
Apesar dos benefícios evidentes, a adoção de modelos avançados de decisão ainda é limitada em muitos ambientes, devido principalmente a:
• cultura operacional baseada na experiência;
• percepção de complexidade;
• fragmentação de dados;
• receio da perda de controle;
Segundo a UNCTAD (2023), a digitalização portuária ainda enfrenta desafios significativos relacionados à integração de sistemas e à maturidade tecnológica, especialmente em países em desenvolvimento. Nesse contexto, o desafio não é apenas técnico, mas, sobretudo, cultural.
A transição para a adoção de decisões mais eficientes passa pela integração entre dados, tecnologia e modelos analíticos.
As soluções baseadas na captura automatizada de informações, combinadas com os sistemas de gestão e plataformas analíticas, permitem construir uma base confiável para que deliberações mais sofisticadas estejam disponíveis, ou seja, mais do que digitalizar processos, o avanço está em estruturar o conhecimento, que é uma tendência observada globalmente na evolução dos portos rumo ao conceito de “smart ports” (UNCTAD, 2023).
A planilha eletrônica continuará sendo uma ferramenta essencial na logística. No entanto, à medida que os sistemas se tornarem mais complexos, confiar exclusivamente em abordagens simplificadas para solucionar problemas críticos, limitará muito o desempenho.
O desafio atual não é abandonar as ferramentas já conhecidas, mas evoluir a forma como as providências são tomadas. Os sistemas portuários não exigem apenas organização, mas também otimização. E, nesse novo cenário, a diferença entre operar bem e operar de forma excelente estará cada vez mais ligada à capacidade de decidir melhor.
Dennis Caceta é engenheiro especializado em Gerenciamento de Projetos (USP/Leeds), Estatística para Análise de Negócios (FCAV/Rice), mestrando em Pesquisa Operacional (ITA/UNIFESP) e Gerente de Projetos para Melhoria Contínua na GBM TECH & CONTROL (by nstech)
Referências
BIERWIRTH, Christian; MEISEL, Frank. A survey of berth allocation and quay crane scheduling problems in container terminals. European Journal of Operational Research, v. 202, n. 3, p. 615–627, 2010.
CARLO, Hector J.; VIS, Iris F. A.; ROODBERGEN, Kees Jan. Seaside operations in container terminals: literature overview, trends, and research directions. European Journal of Operational Research, v. 242, n. 1, p. 1–13, 2015.
NOTTEBOOM, Theo; RODRIGUE, Jean-Paul. Port regionalization: towards a new phase in port development. Maritime Policy & Management, v. 32, n. 3, p. 297–313, 2005.
PINEDO, Michael. Scheduling: theory, algorithms, and systems. 5. ed. New York: Springer, 2016.
UNCTAD. Review of Maritime Transport 2023. Geneva: United Nations, 2023.














