A dívida líquida de R$ 300 bilhões será a próxima batalha da diretoria da Petrobras depois da entrega, prevista para esta quarta (22), dos balanços auditados em atraso de até 159 dias.
Egressos do Banco do Brasil, Bendine e Ivan Monteiro, diretor financeiro, estudam estratégias para reduzir o endividamento. Medidas já anunciadas, como corte de investimentos e venda de ativos, ajudam ao reduzir a demanda por financiamento.
A dupla estuda outras iniciativas. A Folha apurou que, neste momento, emitir novas ações ou transformar dívida de bancos públicos, como BNDES, em participação acionária, como se especula no mercado, estão fora da mesa.
EMPRÉSTIMOS
A dívida já havia passado dos R$ 261 bilhões em setembro, com a alta de 25% do dólar no período –67% da dívida da estatal é nessa moeda.
E cresceu mais, com os novos empréstimos: R$ 10,7 bilhões com a China, no final de março, e R$ 4,5 bilhões liberados nesta sexta-feira (17) pelo Banco do Brasil.
A empresa diz que não precisa mais levantar recursos neste ano, porque planeja vender US$ 13,7 bilhões em ativos até 2016 –acaba de vender R$ 9 bilhões em plataformas– e tem R$ 5 bilhões em crédito pré-aprovado.
RISCO AFASTADO
Os empréstimos obtidos afastam o risco, identificado no começo de março pela área financeira da Petrobras, de chegar a dezembro com o caixa no piso tido como seguro, de US$ 10 bilhões. Mas aumentam o endividamento.
Um dos mais importantes indicadores desse aspecto, a relação entre dívida líquida e capacidade de gerar caixa (medida pelo Ebitda), deve estar acima de 5, estima o mercado. "O ideal seria 3,5", diz Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Corretora.
A pesada dívida é mais um obstáculo no caminho no qual Bendine gostaria de ver a empresa. A alta do dólar, de quase 20% no ano, e o preço do barril, pioram as coisas.
A Petrobras é "importadora líquida", ou seja, ela importa mais do que exporta, na conta final entre o que vende lá fora –petróleo mais pesado produzido no Brasil– e o que traz –petróleo mais leve, exigido pelas refinarias brasileiras por questões técnicas, e parte dos combustíveis consumidos. E dólar alto é ruim para importadores.
PREÇO DO PETRÓLEO
A queda no preço do barril de petróleo, de US$ 110 para US$ 45 de julho a janeiro, tem dois lados.
Na venda de combustíveis, o petróleo mais barato tem ajudado porque estancou a perda com a defasagem em relação aos preços externos –a Petrobras é impedida pelo governo de ajustar preços automaticamente.
Desde novembro, a empresa até ganhou dinheiro com uma defasagem positiva, e recuperou R$ 6,4 bilhões, dos R$ 90 bilhões negativos acumulados pelo cenário de alta do barril, segundo o Centro Brasileiro de Infraestrutura. A alta do barril, para a casa de US$ 55, e o dólar, porém, estão zerando a vantagem.
Por outro lado, a cotação menor do barril acende o alerta sobre os projetos de produzir petróleo das promissoras reservas do pré-sal.
A exploração dessas reservas só é economicamente viável se o petróleo estiver acima de US$ 52 por barril.
As perdas com os combustíveis e os pesados investimentos dos últimos anos, em refinarias e no pré-sal, aprofundaram o endividamento.
PLANO DE INVESTIMENTO
A Petrobras teve seu primeiro problema com balanços, em outubro.
A PwC se recusou a auditar e aprovar o documento porque diretores responsáveis por atestar a veracidade de informações foram citados na Operação Lava Jato, que apura corrupção.
Depois foi preciso estabelecer um critério para calcular as perdas com o pagamento de propinas, o que foi resolvido neste mês.
Quando o balanço for entregue, a diretoria terá de rever o plano de investimentos, para enxugar e cortar projetos. A ex-presidente Graça Foster previa cortar os investimentos em 30% este ano, para US$ 31 bilhões.
"Para preservar o caixa, é fundamental que a empresa não volte a perder dinheiro com a venda de combustíveis", diz Plácido.
Fone: Folha de São Paulo/SAMANTHA LIMA DO RIO
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