A situação financeira do grupo de infraestrutura Triunfo Participações e Investimentos, com alto endividamento em seus projetos e dificuldade de obter financiamento, ficou ainda mais delicada a partir de ontem. A empresa comunicou ao mercado que tomou conhecimento "da existência de ações de execução" movidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para que pague, em parcela única, dois empréstimos-ponte no valor global de R$ 979 milhões que venceram em 2016.
O débito é relativo às concessionárias de rodovias Concer (que liga Minas Gerais ao Rio de Janeiro), no valor de R$ 219 milhões, e Concebra (Distrito Federal, Minas Gerais e Goiás), no valor de R$ 760 milhões. Esta, a maior dívida da Triunfo. Ambos os empréstimos-ponte expiraram em 15 de novembro e 15 de dezembro, respectivamente.
PUBLICIDADE
Embora não tenha recebido citação da Justiça sobre as ações de execução do BNDES, a Triunfo informou que as cobranças dos débitos já são contestadas em ações que a companhia propôs na Justiça Federal do Rio de Janeiro.
No fato relevante, o grupo de infraestrutura informou que, tão logo receba a citação, "avaliará o cabimento e oportunidade de medidas adicionais às ações".
Esse é o mais recente capítulo das dificuldades por que passa a Triunfo. Há um mês, o BNDES executou as fianças bancárias relacionadas ao empréstimo-ponte da Concebra emitidas por dois bancos privados - Banco do Brasil (R$ 100 milhões) e BDMG (R$ 60 milhões). Segundo o BNDES disse em nota, as cartas foram honradas. Em seguida, a instituição informou que ingressou com ação de execução judicial para a cobrança do restante do valor junto à Triunfo, devedora solidária da dívida.
Os problemas da companhia têm relação com a alta alavancagem de alguns projetos que exigiram grande volume de investimento, mas tiveram a demanda frustrada devido à crise econômica. É o caso do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), que opera com ociosidade elevada.
Diante do cenário difícil, a Triunfo recorreu à contratação de assessores financeiro e legal para elaborar um "plano de melhoria de estrutura de capital", que inclui a possibilidade de venda de ativos.
Conforme o Valor apurou, são potenciais alvos de venda os ativos não estratégicos, fora de seu negócio principal - as rodovias. Estariam no páreo para venda a Portonave, terminal privado de contêineres em Navegantes (SC), no qual tem 50%, e um dos ativos mais líquidos; o aeroporto de Viracopos, o ativo mais alavancado; o terreno em Santos onde seria construído um terminal privado; e a fatia na Tijoá - a concessionária que controla a usina hidrelétrica de Três Irmãos, no Estado de São Paulo.
No mercado, fontes que acompanham a empresa avaliam que a Triunfo não deve ter "apego" a nenhum ativo e, se for o caso, não deveria descartar, no limite, a devolução de concessões rodoviárias muito endividadas, uma vez que os compromissos seriam assumidos pelos novos controladores.
Pesou sobre a empresa ainda a dificuldade de obter empréstimos de longo prazo do BNDES. A quitação do empréstimo-ponte da Concebra seria realizada com o financiamento de longo prazo no valor de R$ 3,6 bilhões. Aprovado pela diretoria do banco em fevereiro de 2016, não saiu até agora. O BNDES disse que o empréstimo de longo prazo não pôde ser formalizado por "não terem sido atendidas todas as condições estabelecidas na referida decisão de diretoria".
Já o empréstimo de longo prazo da Concer não chegou a ser aprovado pelo BNDES.
Ao fim de setembro a Triunfo contava com uma dívida bruta de R$ 3,66 bilhões ante R$ 180 milhões de disponibilidades. Do total da dívida, apenas Concebra e Concer, dois dos cinco ativos rodoviários do grupo, respondem por 23% e 13%, respectivamente. O aeroporto de Viracopos concentra outros 19% do endividamento.
Procurada, a Triunfo preferiu não se manifestar.
Fonte: Valor