A valorização do real em meio a um forte começo de ano para as commodities tem chamado atenção por caminhar na direção oposta do cenário para o câmbio traçado por algumas das principais casas. Embora as estimativas para o valor da moeda brasileira ante o dólar ao fim de 2017 se mostrem dispersas, ainda predomina no mercado a avaliação de que o real deve se depreciar ao longo do ano, tendo como pano de fundo riscos vindos da China e a possibilidade de um ano de perdas para as matériasprimas.
Ao mesmo tempo, alguns profissionais já veem o diferencial de taxas de juros como mais determinante na formação da taxa de câmbio do que o preço das commodities. A variável ganha relevância no ano por causa da expectativa de redução acelerada dos juros no Brasil, mais um elemento desfavorável ao real.
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Ontem, o dólar fechou em queda ante o real, acompanhando o movimento de desvalorização da moeda americana no exterior, sustentado pela alta dos preços das commodities e pelo dado abaixo do esperado da criação de vagas de trabalho no setor privado nos EUA. A expectativa de aumento de fluxo de recursos para o Brasil, com a volta das captações externas e de operações de fusões e aquisições, também ajudou a intensificar a desvalorização da moeda americana. O dólar caiu 0,67%, a R$ 3,1975, menor patamar desde 8 de novembro de 2016, antes da eleição de Donald Trump nos EUA.
As commodities passaram a subir com mais força desde a eleição de Trump, na esteira da expectativa de um aumento de gastos em infraestrutura, o que tende a ampliar a demanda por matériasprimas. Mas o aquecimento do mercado de construção da China é citado como um fator ainda mais importante para esse desempenho sobretudo para o Brasil, que tem no país asiático o principal comprador de seus produtos básicos.
A dúvida entre analistas é justamente em torno da sustentabilidade das expectativas para as duas maiores economias globais, o que ameaça diretamente o cenário para as commodities ao longo do ano. "Não vejo a China retomando uma taxa forte de crescimento, e isso torna muito pouco provável o início de um novo ciclo de commodities, como aquele que valorizou o câmbio brasileiro entre 2004 e 2011", diz Roberto Padovani, do Banco Votorantim. Ao mesmo tempo, Padovani vê os EUA como "mais próximos de reduzir estímulos" do que Europa e Japão, por exemplo. Esse raciocínio favorece um quadro de dólar ainda forte no mundo. O Votorantim prevê desvalorização de 7% do real até dezembro, para R$ 3,50 por dólar.
Já o Santander ainda vê o desempenho das matériasprimas como o fator mais determinante para a taxa de câmbio, mas diz que essa importância relativa vem caindo há pelo menos uma década. A economista do banco Tatiana Pinheiro calcula que 82% da valorização do real ocorrida entre janeiro de 2006 e dezembro de 2007 decorreu da apreciação das commodities. Entre o começo de dezembro de 2016 e 4 de janeiro de 2017, contudo, as matériasprimas representaram apenas 43% da valorização da taxa de câmbio. O banco espanhol trabalha com um cenário de preços estáveis das matériasprimas neste ano, com riscos de alguma depreciação devida ao crescimento chinês. Isso já seria suficiente para reduzir a probabilidade de ganhos do real neste ano, mas o Santander não descarta chances de os EUA assumirem uma postura mais protecionista no comércio exterior, o que tenderia a impulsionar mais o dólar.
"O conjunto desses fatores e a necessidade de ajuste ao diferencial de inflação explicam nossa projeção de dólar a R$ 3,75 no fim do ano", diz Tatiana. Essa taxa embute uma depreciação de 13% do real em 2017, anulando boa parte da alta de 20% do ano passado.
O analista de pesquisa econômica do Itaú Unibanco Artur Manoel Passos chama mais atenção para o desempenho esperado para as commodities metálicas, grupo do qual faz parte o minério de ferro. O minério e seus concentrados representam o segundo principal produto da pauta de exportação brasileira, tendo rendido no ano passado US$ 13,3 bilhões.
Desde o fim de novembro, o minério de ferro subiu quase 3%. No mesmo período, o real se valorizou 5,7% ante o dólar. Passos prevê uma queda de 18% nos preços das commodities metálicas neste ano, depois do salto de 49% do ano passado.
Essa projeção explica parte da expectativa do Itaú de que o real se desvalorize cerca de 10% até o fim do ano, para R$ 3,60 por dólar. "Talvez os mercados estejam colocando fichas em excesso no que se imagina que será a política de Trump para a infraestrutura nos EUA", diz Passos, expressando dúvidas sobre o impacto positivo desse cenário para as commodities.
O cenário de matériasprimas em queda, contudo, não é consenso. O BNP Paribas, por exemplo, não vê a China trazendo "ventos de cauda" em 2017, o que seria benéfico para os preços dos metais. Além disso, com o dólar nas máximas em mais de uma década no exterior, aumentam as chances de uma correção de baixa, o que seria também positivo para as commodities. Nesta quintafeira, o índice do dólar ante uma cesta de divisas fortes recuou mais de 1%, nos menores patamares em três semanas.
Esses pontos sustentam em parte a expectativa do estrategistachefe de câmbio e juros para a América Latina do BNP, Gabriel Gersztein, de que o dólar poderá cair a R$ 3,00 neste ano. O BNP vem sustentando posição comprada em real desde o ano passado, que até o momento já rendeu 18%.
Fonte: Valor Econômico/José de Castro