"O período de alto preço do minério de ferro acabou e os governos também precisam ter consciência disso", afirmou ontem o representante da Vale, maior produtora mundial do produto, no Fórum Global de Commodities, em Genebra.
Michael Tost, diretor de assuntos externos da Vale para Europa e América do Norte, observou que os preços estão voltando aos níveis de dez ou doze anos atrás, e a empresa não deve iniciar projeto novo com essa cotação.
O executivo evitou fazer projeções, mencionando apenas que o Citibank recentemente falou em mais queda para US$ 40 a tonelada comparado a US$ 47 atualmente - em janeiro de 2014 a tonelada valia US$ 128.
Também organizador do Fórum, a Agência das Nações para o Comercio e Desenvolvimento (Unctad) estima que, a menos que ocorra uma grande redução da produção pelos grandes grupos, o preço de minério continuará sob pressão em 2015.
Argumenta que o ''mergulho'' de preço do minério tem sido causado pelo excesso de oferta dos grandes grupos internacionais do setor. No geral, a Unctad acha que apesar da queda, os preços das commodities continuam elevados comparado aos níveis de antes de 2003. A expectativa é de que os preços devem continuar "moderados" nos próximos meses. Para o médio e longo prazo, a incerteza é alta.
O declínio nos valores de commodities tem variado de 10% a 50% comparado a media dos últimos dez anos. No começo de 2015, a cotação do minério de ferro declinou 50%, de petróleo 40% e o de borracha 37% em relação a media da ultima década.
Preço baixo das commodities reduz a receita disponível dos governos para distribuição através da cadeia de valor. Para a Unctad, "isso pode criar tensões entre os 'stakeholders' e minar políticas adotadas no super-ciclo de alto preço das commodities".
Yilmaz Akyuz, economista chefe do South Centre, que reúne países em desenvolvimento, apresentou pesquisa sobre a gestão macroeconômica do recente boom de commodities. Sua conclusão é de que, embora vários países exportadores tenham obtido crescimento sustentável durante esse período, suas políticas tiveram menos sucesso em converter esse crescimento em diversificação de suas economias, aprofundamento de seu mercado de capital ou em redução de seu endividamento.
Os governos mais dependentes de petróleo são particularmente vulneráveis à nova situação. O barril passou de US$ 100 em junho de 2014 para menos de US$ 50 atualmente. Unctad exemplifica que, no auge do super-ciclo das commodities, 70% da receita de governos de Angola, Nigéria e Chade vinham de seu setor petroleiro. Com a baixa agora da arrecadação, os governos são forçados a cortar despesas, congelar novos projetos e atrasar pagamentos de salários.
Samuel Gayi, da Unctad, diz que os períodos de "boom" são mais curtos e seguidos de longos períodos de cotação baixa ou estagnada no segmento de matérias-primas.
Fonte: Valor Econômico/Assis Moreira | De Genebra
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