Sob o impacto da depressão econômica do país no ano, com desempenhos negativos de praticamente todos os setores da indústria de transformação, as vendas de aço das siderúrgicas locais encerraram o primeiro trimestre com queda de 5,3%, conforme dados que o Instituto Aço Brasil vai divulgar hoje. A comparação é com igual período de 2014.
"Em março, tivemos uma pequena, bem pequena, melhora, porém, os números de janeiro e fevereiro foram muito ruins", afirmou ao Valor o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, entidade que reúne os fabricantes no Brasil, Marco Polo de Melo Lopes. "Não vemos nada que representa uma mudança dessa situação no curto e médio prazo".
No primeiro bimestre, apontou Lopes, informações de grandes setores consumidores de aço indicaram quedas expressivas na atividade. O setor automotivo, por exemplo, quase 25%. Em bens de capital, chegou a 21%; produtos de linha branca, 10,5%; construção civil, 10,2%; máquinas e equipamentos, 10%. Esses setores são responsáveis por cerca de 85% do consumo de aço no Brasil.
De janeiro a março, o consumo aparente (vendas internas mais importações) do país totalizou 6,1 milhões de toneladas - retração de 2,7% ante igual período do ano passado. Março contra março registrou alta de apenas 0,5%. A siderurgia brasileira opera com um terço de ociosidade na capacidade instalada há um bom tempo, ante o excesso de oferta de aço no mundo e da perda de competitividade para exportar, avalia o executivo.
As importações no período, apesar da valorização do dólar, se mantiveram em alta. No todo, cresceram 13,5% - em aços longos (fabricados por Gerdau, ArcelorMittal e Votorantim), 18,5%, e em planos (Usiminas, CSN, Gerdau e ArcelorMittal), aumento de 15,3%. Em março, aços planos - a maioria oriunda da China - tiveram queda de 15,6%, com arrefecimento da economia e alta do dólar. No entanto, longos subiram 21,1%.
Para Lopes, o maior problema é que 75% da pauta de exportação de aço do Brasil é de produto semi-acabado (placas e tarugos), que tem menor valor agregado. No trimestre, houve expansão de quase 40%, todavia puxada pelo religamento do forno de placas da ArcelorMittal Tubarão, voltado à exportação de placas aos EUA.
Já as importações se concentram em aços laminados (chapas e bobinas), com valor bem superior. "A China, que respondia por apenas 1,3% das importações de aço do Brasil em 2000, no ano passado ficou com 52%", diz.
A projeção de entrada de aço estrangeiro no país este ano é de 3,7 milhões de toneladas, 6,3% abaixo do volume de 2014. Isso é agravado com a entrada indireta de bens contendo aço, como autopeças e automóveis. "Perdemos o correspondente a uma Usiminas".
Segundo o executivo, a indústria de transformação no país tem de ser encarada com prioridade pelo governo, mesmo no bojo de um plano de ajuste econômico. Ele aponta, por exemplo, as mudanças no Reintegra, programa criado para compensar resíduos tributários na exportação. Foi definido por volta de novembro em 3% para vigorar neste e no próximo ano. "Foi mudado para 1% até fim de 2016; 2% em 2017 e 3% em 2018. Tivemos um confisco de 2%". Considerando a previsão de exportar US$ 8 bilhões neste ano, significa uma perda de US$ 160 milhões ao setor"
A pauta macro da siderurgia lista um câmbio sem artificialismos - "têm de flutuar, pois o mundo inteiro se desvaloriza" -, juros em padrões competitivos - "o Brasil está fora da curva" - e tributação com cumulatividade zero, afirma Lopes. "Continuamos perdendo competitividade; por isso, o governo tem de olhar a indústria de transformação com a mesma prioridade que dá a outras coisas".
O executivo lembra que a indústria de transformação, na qual se inclui a siderurgia, hoje responde por 12% do PIB do país, menos da metade de duas décadas atrás. Foi isso, disse, que levou ao lançamento do movimento Coalizão Pró-Competitividade na semana passada, com cerca de 40 entidades empresariais e de trabalhadores.
Quanto à siderurgia, reafirma o presidente do Aço Brasil, "se nada for feito, em 2024 mais da metade do consumo aparente final de aço do país será suprida via importações". Hoje, já atinge 32%.
Fonte: Valor Econômico/Ivo Ribeiro | De São Paulo
PUBLICIDADE