O analista-chefe da Xeneta, Peter Sand, prevê que, mesmo com aumento dos preços de combustíveis e a impossibilidade de navegar pelo Golfo Pérsico por causa da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e do fechamento do Estreito de Hormuz e dos ataques a embarcações mercantes, o transporte de contêineres será mantido em níveis próximos aos de antes do início do conflito, em 28 de fevereiro. A avaliação da plataforma, especializada em cotações de fretes internacionais do transporte marítimo, é que no momento os confrontos causam impactos nas cadeias de suprimentos, mas as empresas de navegação já estão buscando rotas alternativas.
Sand explicou que, como companhias suspenderam os serviços para alguns destinos no Golfo Pérsico, os proprietários de cargas estão sendo forçados a buscar soluções logísticas alternativas. De acordo com o analista, mesmo com as interrupções em algumas rotas, as cadeias de suprimentos não param. “Algumas simplesmente não podem se desconectar. Precisam que suas cargas continuem em movimento”, disse ele.
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Diante dessas restrições, alguns fluxos de carga estão sendo redirecionados para portos alternativos, como, por exemplo, o de Nhava Sheva, na Índia, que está sendo usado como ponto temporário de armazenamento e transbordo para aproximar a carga do Golfo Pérsico. Mas, segundo Sand, essa estratégia está criando gargalos significativos. “O congestionamento está aumentando e é prejudicial para as cadeias de suprimentos, já que as companhias de navegação e os proprietários de cargas tentam identificar a opção menos prejudicial”.
O congestionamento em Nhava Sheva disparou de 15% antes da crise para quase 55% e continua a aumentar. O aumento do congestionamento também está sendo relatado em centros do Sudeste Asiático, como Port Kelang e Tanjung Pelepas, na Malásia. Nesse cenário, as operadoras estão adotando diferentes estratégias para manter o fluxo de carga. Segundo Sand, as companhias de navegação encontrarão soluções para manter os serviços durante esse evento imprevisível, mas isso terá um custo para os proprietários da carga.
Entre as alternativas citadas estão novos esquemas de logística híbrida. Um exemplo é o serviço iniciado pela CMA CGM, que descarrega contêineres em Khor Fakkan, antes do Estreito de Ormuz, e depois os transporta por trem ou caminhão para mercados no Golfo Pérsico. A medida tenta contornar operações portuárias que foram suspensas.
O analista Lars Jensen, também da Xeneta, informou que o último comunicado operacional da Maersk mostra que as operações no Bahrein e em Salalah, no Omã, estão paralisadas. Além disso, a ONE pede que seus clientes devolvam os contêineres vazios em Sohar, no Omã, ou Jeddah, na Arábia Saudita, e impõe sobretaxas de 2.250 dólares por TEU e 2.750 por FEU a quem não o fizer.
Jensen informou que a crise está impactando o mercado de combustíveis marítimos e que a diferença de preço entre o óleo combustível com teor muito baixo de enxofre e o convencional aumentou significativamente. "Antes da guerra, o diferencial permanecia estável em torno de 100 dólares por tonelada. Agora, subiu para 228 dólares", explicou.
Na avaliação do analista, essa mudança beneficia navios equipados com depuradores de gases de escape, que podem usar combustível mais barato. Segundo Jensen, 42% da frota de porta-contêineres está equipada com depuradores de gases de escape, o que, na situação atual, diz ele, lhes confere vantagem em termos de custos.
O especialista ressaltou que o aumento nos preços do combustível marítimo não vai necessariamente paralisar o transporte. Usando a Maersk como exemplo, Jensen informou que em 2025 a empresa gastou 6,3 bilhões de dólares em combustível para transportar 12,9 milhões de FEUs, o que equivale a cerca de 488 dólares por contêiner e que, se o preço, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, dobrasse por um ano, obrigaria as transportadoras a aumentar em 488 dólares por FEU as taxas de frete, o que as levaria a níveis semelhantes aos cobrados em 2024.
Ele lembrou que, apesar dos preços altos cobrados pelos fretes naquele ano, as cadeias de suprimentos funcionaram razoavelmente bem. “O aumento nos preços do combustível marítimo encarece os serviços, mas não é prejudicial à cadeia logística global”, disse
Jensen explicou ainda que já há dados que mostram que o conflito começa a se refletir nas taxas de frete marítimo. Segundo o especialista, as taxas spot de Xangai para Dubai aumentaram dos 1.327 dólares por TEU cobrados há duas semanas para 3.220 por TEU atualmente. Além disso, são observados efeitos indiretos em outras rotas. "Estamos vendo um efeito de contágio em outras rotas marítimas, com aumentos entre 11% e 16% nas taxas de frete entre a Ásia e a Europa e entre a Ásia e os Estados Unidos.
A Xeneta observa no mercado movimentos de embarcadores que pagam mais para garantir espaço nos navios e o transporte de suas cargas. "Alguns proprietários de carga estão fechando, para rotas da China para o norte da Europa e o Mediterrâneo, contratos com tarifas de 4.000 dólares a 5.000 dólares por FEU, aproximadamente 50% acima da média do mercado", explicou Peter Sand.
Apesar disso, o Índice Mundial de Contêineres da plataforma Drewry (WCI) registrou variação menor, de 8%, para 2.123 por FEU, puxada principalmente por aumentos nas rotas entre a Ásia e a Europa. De acordo com a empresa, as tarifas entre Xangai e Roterdã subiram 19%, para 2.443 dólares por FEU, enquanto na rota Xangai-Gênova aumentaram 10%, para 3.120 dólares por FEU.
















