Os analistas ainda duvidam do quanto o acordo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) funcionará para cortar a produção e reter a queda anterior dos preços, mas por enquanto a perspectiva ajudou a equilibrar a oferta e a demanda do mercado mais cedo. Os preços subiram recentemente e no acumulado de 2016, mas as apostas dos investidores é que o teto já está próximo.
Dois pontos serão cruciais para impulsionar ou reter a valorização da commodity em 2017. Em primeiro lugar, o comportamento da demanda mundial, que dependerá em grande parte do crescimento econômico, e sem segundo, o quanto a cotação vai animar as produtoras no xisto americano a voltarem à ativa.
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Ontem, o segundo contrato do petróleo de tipo Brent, para entrega em março, fechou negociado em US$ 56,96 o barril na ICE Futures de Londres, subindo 10% durante dezembro e 51% até então no ano. O WTI para o mesmo mês ficou em US$ 54,95 na Nymex, de Nova York, altas de 8% e 47%, respectivamente. Para o ano que vem, seis instituições consultadas pelo Valor projetam média de US$ 55,50 para o Brent.
A Opep acertou em 32,5 milhões de barris um teto para sua produção diária e países importantes fora do cartel, como a Rússia, vão se unir para reduzir em 558 mil barris os volumes extraídos atualmente. "A adição de participantes do acordo que não são membros da Opep ajuda muito na confiança do mercado", escreve a BMI Research, casa de análise ligada à agência de risco Fitch Ratings, em relatório. A instituição crê que os preços ainda possam passar de US$ 60 antes de uma potencial correção.
Mas o próprio mercado futuro já parece ter determinado um limite para o fôlego da commodity. Na ICE, o contrato mais valioso do Brent é o de entrega em agosto, cotado em US$ 58,75. Depois disso, os investidores creem em um retorno ao patamar de US$ 58 até dezembro, mostrando o limite do equilíbrio.
"Não acreditamos que a oferta vá cair tanto quanto foi anunciado, já que muito provavelmente os países vão falhar em implantar todos os cortes prometidos", opina Thomas Pugh, analista da consultoria Capital Economics. Há meses o especialista lembra que historicamente a Opep não cumpriu com metas de produção, o que muito provavelmente pode se repetir agora - principalmente se os Estados Unidos elevarem demais a atividade.
Da máxima histórica de 9,6 milhões de barris por dia que os EUA extraíam em março de 2015, o número de sondas exploratórias no xisto foi encolhendo até que o volume tocou os 8,4 milhões de barris em julho deste ano. Desde então, a produção americana já cresceu 4% e terminou a semana até o dia 16 em 8,8 milhões de barris por dia.
Os cálculos dos analistas são de que a partir de US$ 55 muitas petrolíferas que atuam nos EUA têm incentivo a extrair mais. "Enquanto os preços continuarem subindo, aumenta o benefício para as operações no xisto, o que pode desequilibrar o mercado novamente", acrescenta Pugh. O analista crê que até o fim de 2017 o preço atingirá US$ 60.
Mas a Capital Economics ressalta, em relatório no qual revelou suas expectativas para o ano que chega, que muito provavelmente será a demanda que vai direcionar a cotação da commodity. Caso os estímulos prometidos pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump, vinguem, é possível que a economia cresça acima do esperado e a demanda por combustíveis - consequentemente, também pelo óleo bruto - vá junto, afirma a consultoria.
Na China, que segue na transição de uma economia focada no investimento em infraestrutura para outra baseada no consumo, é possível também que o setor de transporte se aqueça, diz a instituição. Isso pode significar a procura mais elevada pelo petróleo - talvez nos próximos anos.
Em relatório, o Goldman Sachs opina que a perspectiva é muito mais de um comportamento estável para os preços daqui para frente, enquanto continua o cabo de guerra entre Opep e EUA. O banco não vê a cotação ultrapassando os US$ 55 após o terceiro trimestre do ano que vem. "O que vemos é que os cortes de produção vão ajudar a reduzir estoques, e não exatamente garantir uma valorização do petróleo."
O Commerzbank, por sua vez, acrescenta que o mesmo ganho de confiança no mercado futuro que levou ao repique dos preços pode funcionar para baixo. Na ICE, o volume de posições em aberto que apostam na alta do petróleo bateu recorde durante dezembro. Em um mês, o aumento foi de 90%. Caso a lua de mel dos investidores com a commodity termine, a queda também poderia ser bem intensa.
Fonte: Valor